Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

17 de agosto de 2005

Os sintomas do engano

O leitor Duarte Bento, que muito estimo, comentou-me sobre Mário Soares. Vale a pena dissecar os argumentos que ele apresenta porque são ilustrativos do engano em que labora a minoria que acredita na eleição do “fundador do PS”.

«Eu acredito que Mário Soares ganhará as eleições presidenciais por larga maioria. Soares terá o apoio total e unânime de toda a Esquerda Portuguesa; bem como terá também o apoio de uma larga franja Social-democrata; bem como terá também o apoio de um largo sector Democrata-cristão.»

Com efeito, é uma questão de crença. Que o eleitorado do PS vote nele pela recomendação partidária, percebe-se. Até os novos eleitores, os que há 20 anos (aquando do MASP I) nem eram nascidos ou não tinham cartão de eleitor. Agora estes novos eleitores que não pertençam ao PS (e, acredito, muitos dos que pertencem) que razão têm para votar Soares e não Cavaco, se for Cavaco?

Tirando a meia dúzia de tontos e tontas que são “contra” a “globalização”, um dos temas que, absurda e inconcebivelmente, o “fundador do PS” abraçou como um pré-adolescente abraça a causa dos gatinhos abandonados no Verão, ninguem com menos de 50 anos se revê nas palavras, na pose, na atitude de Soares. Pelo contrário, desconfiará do homem que já foi Primeiro-Ministro e Presidente e tudo, e terá tendência para reter nos ouvidos os argumentos “contra” Soares. Evidentemente, não terão razão nenhuma.

Já Cavaco (se for Cavaco) se apresentará aos seus olhos como o mais novo e com um discurso que vai com l’air du temps, “liberal”, e essas tretas económicas que hoje caem bem na papalvice geral das eleições. Apaziguador – onde Soares é rígido. Calmo – onde Soares se mostrará inevitavelmente frenético pois só no confronto directo tem a ganhar contra Cavaco, dada a sua habilidade.

Quanto à laranjada geral, podem não gostar de Cavaco (e se o elitista PSD, Graça Moura excluído, visivelmente não o grama, convém avisar que o laranjal não é só o PSD e que os laranjinhas deram sempre suporte a Cavaco), mas cresceram entre pais que odiavam Soares e vão querer vingar-se, no mínimo.

Já os “democratas-cristãos”, caro Duarte Bento, quem são esses? E, admitindo a sua existência (e a existência neles de uma consciência política), porque carga de água votariam no laico e “esquerdalho” Soares?

«Por outro lado, acredito eu também que os únicos verdadeiros «anticorpos» que existem contra Mário Soares têm somente a ver com algo que ainda nunca foi referido: a descolonização. Existem «muitos» portugueses que culpam particularmente Mário Soares pela «má descolonização» realizada por Portugal.».

Não compro. Primeiro: nestas eleições não se trata de anticorpos, trata-se de apresentar razões para eleger um actor antigo da política que que regressar ao tacho (nisso estão no mesmo pé). Segundo, a “descolonização”: já só sobram meia dúzia de portugueses eleitores capazes de se lembrar disso. Colónias, para a massa dos eleitores de hoje, são as águas das ditas.

Vamos ao terceiro engano:

«Esta capacidade de «nobelizar» os mais velhos tem sido somente, ao longo da História Humana, praticamente só apanágio dos países orientais como o Japão, o Tibete, a China, e a Índia (e outros do mesmo mundo cultural). Penso ser muito relevante este aspecto profundamente da esfera do Respeito Humano, algo humano muito valioso que nos falta na nossa cultura ocidental.».

Aqui convém dizer que concordo inteiramente com Duarte Bento: se fosse eu a decidir, e pela idade, antes Soares que Cavaco — de longe. Mais vale um velho sábio a mandar — de preferência com um jovem turco ao leme do barco. E isto não é só válido para a política, é válido para tudo na vida.

O problema é que eu e Duarte Bento fazemos parte da curtíssima minoria para a qual a juventude não é um valor, bem pelo contrário. Eu, e penso que Duarte Bento também e quiçá mais meia dúzia de portugueses com idade e pernas para votar, penso que a política (e outros dirigismos) é um território para os sapientes e que a carne fresca é qualificada para as nobres actividades de procriar e labutar. Eu, e aqui aparentemente sozinho, acho um disparate insano que a sociedade (e, nela, os detentores dos meios de produção, que é quem lucra com isto tudo) fabrique este mito da juventude atleta sexual — que é a imagem do Homem que os audiovisuais transmitiram aos alienígenas que visitaram a Terra nos últimos 20 anos.

Mas eu sou um doido varrido e um maluco. E sobretudo — e isto é que conta — sou apenas UM. Não conto para o totobola eleitoral. Nesse o que conta são as massas. As hordas. E as hordas valorizam o novo em detrimento do velho. Soares não tem a mínima hipótese.

Por tudo isto e muito mais do género que aqui não cabe, penso que é fácil perceber os contornos do inevitável. Mário Soares anunciará ao país, dentro de uma ou duas semanas quando voltarmos todos dos figurativos banhos, que não se candidata. Arranjará uma desculpa qualquer brilhante, estou certo. Antes isso do que sofrer uma pesada humilhação eleitoral às mãos de (olha quem!) Cavaco Silva.