Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

13 de fevereiro de 2007

P de Público

Houve uma altura do percurso da indústria musical em que os DJs se tornaram mais importantes que os músicos. Nos jornais os gráficos estão a ficar mais importantes que os jornalistas. É o que me ocorre a propósito das mudanças recentes com que jornais de todas as latitudes tentam estancar as quebras nas audiências, procurando adaptar-se aos novos públicos.

As mudanças de registo gráfico, francamente, duvido que consigam tal desiderato. Cheiram-me mais a arrogância do management, ou à sua incapacidade de diálogo com quem faz os jornais, incapacidade essa da qual não são os únicos responsáveis…

Não estou a proibir um jornal de mudar. Bem pelo contrário. Como o Daniel Oliveira muito bem observou no seu post de análise ao renovado Público, há coisas que só se mudam de cem em cem anos (o Daniel refere-se ao logotipo). Faço notar que o “meu” Expresso sofreu uma renovação parecida, na minha opinião demasiado profunda — embora os casos sejam diferentes (mais sobre isto adiante) –, rompendo uma tradição evolutiva que tinha permitido ao jornal atravessar três décadas de enormes convulsões ao nível do gosto do design e duas revoluções tecnológicas completas sem que praticamente se desse pela mudança.

Quem analisar as capas do Expresso notará essa evolução (obra do “suave” Mestre Ribeiro) até ao corte brusco de 2006.

Curiosamente, a mudança do Expresso foi-me mais difícil de assimilar que a do Público (or should I now say, P). Só ao fim de umas três semanas estava habituado às colunas novas. Enquanto no Público foi no primeiro dia, nem senti estranheza.

E no entanto considero a primeira até certo ponto justificada pela necessidade de evocar a mudança, tanto interna como externamente, razão que não assiste à segunda: o Público não muda verdadeiramente nada, apenas a “máscara”, é um retocar da pintura com toques de modernidade (alguns de duvidosa escolha, como a disparatada colagem ao hipertexto nas “chamadas” no cabeçalho das páginas para temas de secção diferente).

Houve lugar a uma reorganização interna. A mudança gráfica é, até, para melhor na minha opinião e a linha gráfica do Público já estava abastardada. Mas não chega a passar para fora a mensagem de mudança. É uma lavagem da face operada de forma profissional, impecável, mas duvido que contribua para inverter a tendência dos jornais diários pois os problemas não foram atacados de frente (nem sei se isto é possível hoje, em Portugal).

Voltando à primeira mudança de que falei, a do Expresso, é também uma lavagem do rosto feita de forma profissional e impecável, e neste caso responde a um desejo de vincar a mudança de director e a mudança da direcção (rumo) do jornal. Quis a direcção (e a administração e o proprietário) operar um corte, eu diria até um choque interno (estendendo a palavra interno aqui da redacção aos leitores fiéis do semanário e aos seus anunciantes) e aproveitou o passagem de testemunho para fazer tudo de uma assentada.

É talvez mais perigosa, a ruptura do Expresso, que o “repuxar de pele” do Público. As mudanças operadas no ADN do jornal ao longo de uma década foram disfarçadas e agora abrem-se, corajosamente.

Acabo por onde comecei: para além das intenções periféricas, estas operações cosméticas não são as renovações de que os jornais precisam para sobreviver.

Essas terão de ser operadas ao nível do músico, e não do DJ.

(Nota adicional: se no conteúdo opinativo a mudança me parece para pior, no conteúdo informativo o P está melhorado com uma arrumação de secções mais clara e textos mais densos; a fotografia aparenta ter perdido espaço, mas é só aparência: perdeu foi o papel de encher chouriços.)