Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

6 de abril de 2006

Para a crítica do liberalismo económico

Se a economia planetária se tornasse num grande mercado único, as empresas teriam de ser tão grandes quanto possível — ou seriam incapazes de se manter à tona. Isto «é imediatamente reconhecível como um argumento mercantilista e anti-mercado livre», diz com indiscutível razão John Ralston Saul em The Collapse of Globalism: And the Reinvention of the World (na Amazon).

A obsessão moderna com o tamanho é managerial, não capitalista. Quando têm escolha, os tecnocratas procuram (por definição) o poder através da estrutura e da extensão desta e não através do directo desenvolvimento das vendas. «Para um manager, o sucesso é medido pelo tamanho estrutural e confirmado por bónus» (idem, pp. 80 na versão hardcover).

O maior dos problemas para os managers é: na proporção directa do crescimento as estruturas tornam-se lentas, a criatividade vai-se extinguindo, aumenta a aversão ao risco (fundamental para o capitalismo ou outra economia dinâmica) e o topo estagna. «A forma mais fácil de injectar energia numa estrutura destas é adquirindo outra estrutura. Tratamento de choque managerial. Juntar duas organizações» (bang two organizations together, no original, defeitos de tradução são da minha responsabilidade).

O resultado disto é um novo mundo de aquisições e fusões, nas quais nada é realmente produzido, apenas temos mudanças de largas parcelas dos sectores produtivos de um lado para o outro.

As duas mais recentes “estrelas” da economia portuguesa, as OPAs da Sonae sobre a PT e do BCP sobre o BPI, encaixam na perfeição nesta descrição de Saul. Tal como ele sabiamente desvenda, só por si as operações não darão nenhum tipo de lucro, antes gerarão um aumento da dívida dos compradores. Dívida essa que será paga não através de aumentos nas vendas (o que seria bom para a economia) mas através de simplificação de processos internos (ler: cortes salariais, despedimentos, redução de serviços geradores de produto em nome da redução de custos) e da racionalização das operações (ler: aumento dos custos para os consumidores destinatários).

Mesmo que esta leitura seja controversa (e penso que é demasiado blindada para gerar controvérsia digna desse nome), julgo que é muito dinheiro desperdiçado apenas para mudar nomes, pessoas e secretárias de um lado para o outro.

Este é o mundo pós-capitalista que os liberais económicos realmente pretendem. A troca dos empreendedores pelos amanuenses. Convençam-me do contrário, é um favor que vos peço.