Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

7 de maio de 2006

Para que serviria outro partido assim?

rui conclui no Blasfémias (link) que o CDS-PP já não merece continuar a existir, depois de ter cumprido a sua parte na condução do país para uma sociedade onde o valor da acumulação de riqueza substituiu a criação da dita.

Por mim, embora por antípodas razões, não discordo. As razões é que nos afastam. Além de que rui, que visivelmente (ou não faria parte daquele colectivo blogueiro) quer promover o seu califa ao lugar do actual califa (o que é democraticamente saudável), se socorre de argumentos que não passam de demagógicos delírios (o que é politicamente doentio).

«Se a Constituição da República e a legislação eleitoral e dos partidos não fossem proteccionistas, se o mercado eleitoral português fosse um mercado livre, o CDS já há muito não existiria». Um dos mais curiosos argumentos dos ultrapassados neo-liberais é essa visão reducionista, tudo não passa de um mercado, nada é mais que uma questão de oferta e procura. Essa visão mercantilista da política está na base do falhanço europeu e é bom que dela nos livremos depressa: trocar líderes inspirados pelos seus contabilistas zelosos pode parecer seguro para a economia, mas a prazo condena-a — é a lição a aprender com os tristes resultados da globalização. Há valores (como a palavra firme que leva um povo na direcção certa, como o respeito pelas diferenças culturais) que simplesmente não estão ao alcance das quadradas cabeças dos amanuenses.

Mais à frente rui mente quando diz, muito inocentemente, que «na verdade, os entraves à constituição e ao desenvolvimento de novos partidos e os favorecimentos aos que existem são quase intransponíveis». O Partido da Nova Democracia, o Partido Humanista, o Partido Nacional Renovador (três tiros da pólvora seca da direita que, goste ou não, tem de se ficar pelo CDS-PP), o Movimento Liberal Social e o Bloco de Esquerda (e, na perspectiva que tem a ver com financiamentos e favorecimentos, a candidatura à presidência de Manuel Alegre) são as últimas provas exemplares de que, pelo contrário, o sistema permite a fácil criação de um partido ou movimento (ver lista de partidos na Wikipedia). Não sendo propriamente um balcão para o partido-na-hora (nem quero pensar na consequências de semelhante coisa), as regras burocráticas serão enfadonhas, nunca intransponíveis.

O que rui quer dizer com isto é que o Estado devia colocar-lhe nas mãos de bandeja uma formação política chave na mão (incluindo lóbis já formados, opinion-makers na comunicação social e mailing-list de barões autárquicos). Nada de especial, sendo a exigência típica de quem está habituado a viver do Estado e a pedir ao Estado tudo o que não é capaz de desenvolver, criar, com a sua própria força e recursos.

O que rui muito liberalmente não quer é ter o trabalho de fazer um partido. Pensando melhor, ainda bem: para que serviria outro partido assim?