Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

3 de setembro de 2007

Porque rareiam os projectos web em Portugal?

A web 2.0 é um conceito global. Tão global que escapa aos portugueses. É o que se pode pensar quando se procuram projectos de origem nacional: são raros e definham. Não há inovadores em Portugal? Não há competências?

As respostas para estas e outras questões não são difíceis de dar. O que é parte do problema, não parte da solução.

Assim numa primeira abordagem simples, eu julgo que há inovadores em Portugal e há certamente competências. Encontro os primeiros com alguma frequência, ainda assim, e vejo as segundas desperdiçadas por essa web fora; vivessem certas almas que eu frequento (e leio e sigo) no perímetro do Valley e nem precisavam abrir a boca para lhes encherem os bolsos de reconfortantes notas, para desenvolverem as suas ideias na paz de uma equipa multidisciplinar capaz de as levarem ao sucesso.

Então o que falha?

Continuando numa perspectiva simples, pois este é um texto mais de estímulos (ou provocações, se o leitor preferir a linha dura) que de respostas, eu diria que há dois problemas: somos um país de snobes e de amblíopes.

A “snobeira” da maioria da classe dita geek, que enferma de várias psicoses e complexos que a levam a desdenhar o que o parceiro do lado fez e a aclamar, com laivos de idolatria, um projecto equivalente, ou até pior, desde que venha de fora. No fundo, no fundo, os nossos geeks, tanto os reais como os imaginários, são herdeiros à altura de uma certa miopia cultural portuguesa: gostam de se expressar em inglês pois que isso lhes dá um sentimento de “pertença” a algo maior que a lusa chafarica, e arrepia-os que alguém os confunda com os indígenas.

Este enfado nacional é observável também na blogosfera. Há três anos os blogues portugueses eram parecidos com os americanos e os franceses e os espanhóis, mas hoje não. Hoje são iguais a si próprios, há três anos. Os americanos, franceses e espanhóis mantiveram o entusiasmo da descoberta e revitalizaram-se, reinventaram-se, acompanharam as evoluções. Distanciaram-se dos portugueses. Continuam ligados em rede numa rede cada vez maior. Os portugueses continuam ligados nas mesmas redes que definham, e definham com elas.

Depois temos os amblíopes. Em Portugal a inovação é mal vista. Quem pode investir, joga pelo seguro. A ideia geral é: deixem os americanos fazer e testar, o que pegar depois adaptamos cá ao burgo. A receita é garantida. Lamentavelmente.

Mesmo os sectores mais viajados e esclarecidos preferem refugiar-se nos negócios que conhecem e deitar as culpas do atraso na respectiva evolução para o “sistema” e o eterno maldito, o Estado de costas largas.

Ter ideias em Portugal é um luxo. Quem está perto de um ou dois centros de poder, consegue-o. Quem não integra esses círculos minúsculos enfrenta dificuldades hercúleas.

Esta metodologia de investimento, que se pode classificar de amblíope, conduz a um país auto-limitado. Inovação? Ora, quem deu a Via Verde ao mundo não precisa fazer mais nada (ou já deu o que tinha a dar tendo em conta o tamanho do país, a desculpa alternativa). Tecnologia? Temos uma software-house que vende jogos aos grandes gigantes mundiais das telecomunicações, somos bons então não se vê? E chega!

Com dois ou três projectos vencedores, que se tornam iconográficos, o português fica contente consigo próprio. Exultante, mesmo.

Eu, nem por isso. A economia faz-se de empresas mas a riqueza gera-se com ideias novas. A Via Verde devia ter estimulado o investimento no sector, mas o sector parece sentir-se recompensado e grato quanto baste. E Portugal continua macrocéfalo: o sucesso num exemplo de topo brilha tanto que impede o sucesso nos exemplos das bases.

A web 2.0 é mais que um nome de marketing e é mais que uma realidade social diferente. Não mexe só com a política e a sociedade: mexe com as forças económicas, e nomeadamente com as de amanhã. Mexe com as pessoas, e sobretudo com as pessoas mais novas.

Quando olhamos a escassez de projectos portugueses na área da web 2.0, é difícil não pensar no futuro com alguma preocupação. Aliás, esta começa logo na dificuldade que temos em encontrá-los. A página Observatório Web2.0 Portugal, de Ricardo Bernardo (aka Zone41), é o único ponto de partida que conheço para os seguir.

Há muitas cópias, o que é normal e até desejável para criar um lastro de experiência, mas há também um punhado de originalidades que, com o investimento necessário para aguentar o seu apuro nas tradicionais fases beta prolongadas, quem sabe…

Contudo, os geeks discordam e desdenham das cópias, claro está; os business-angels estão na fase de lerem uns livros e promoverem umas conferências; os bancos não semeiam, colhem; e os capitalistas e empreendedores que dependem da secretária para lhes imprimir o e-mail pensam que isto é coisa de miúdos do liceu e da faculdade.

E na verdade é. Por isso mesmo merecia a atenção deles. Digo eu.