Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

5 de novembro de 2005

Prognósticos, já?

PROGNÓSTICOS, JÁ?. José António Saraiva, o “meu” director no Expresso, avançou já com um prognóstico para a primeira volta das presidenciais. A análise dele tem alguns aspectos perplexizantes (por muito que me esforce não consegui ver onde está a feroz batalha entre Soares e Alegre que assusta as pessoas), mas no essencial não lhe toco. Vale o que vale. Progostica uma vitória de Cavaco Silva com 55 a 60% dos votos, votação equilibrada entre Soares e Alegre rondando ambos os 15% (com Alegre a poder superiorizar-se) e “vitória” (aspas minhas) de Louçã sobre Jerónimo (com cerca de 5% cada).

É arriscado.

Funcionará ou não o voto útil à esquerda? É hoje uma incógnita. As intenções de voto em Manuel Alegre devem-se em grande parte, aparentemente, ao facto de muita gente achar que estando a vitória certa para Cavaco não vale a pena engolir de novo o sapo, entretanto envelhecido e bolorento. É uma intenção simpática para um candidato simpático. Como tendência, poderá resistir à realidade eleitoral? À medida que as eleições se aproximarem não ficarei surpreendido se Soares passar Alegre. Mas, para ser franco, também não ficarei surpreendido se Alegre acentuar o seu segundo lugar. A campanha tem algum peso, Soares perdeu praticamente tudo o que o distinguia antes e Cavaco só se safa enquanto não fala. Se for obrigado pelas circunstâncias a abrir a boca, tudo ficará muito mais interessante para a concorrência. Um debate Alegre – Cavaco tem um vencedor antecipado, o do charme — enquanto o debate Cavaco – Soares é quase certo para o primeiro, basta-lhe debitar números para papalvo abrir a boca, Soares fará o favor de lhos sublinhar.

Mas cá vai, visto a esta distância: 47 a 52 % para Cavaco, 17 a 23 % para Alegre (ou Soares, dependendo da evolução da campanha) 12 a 15% para Soares (ou Alegre, idem), Jerónimo com 5 a 6% e Louçã pelos 4% (os restantes candidatos com menos de 1% somados).

Principais diferenças: não dou por consumada a vitória de Cavaco à primeira volta, entendo que a fragmentação da zona que cobre o centro-esquerda até ao início da esquerda “comunista” e “revolucionária” (traduzindo: PC e BE) não é tão fifty-fifty como o Director do Expresso acha; reservo para depois quem terá a primazia, se Soares se Alegre, porque penso que podemos estar a assistir a uma mudança no eleitorado português, tão impensável como a do extinto PRD, mais ou menos nas mesmas águas, pelo menos no epicentro. Vamos aguardar pelas sondagens de meados de Dezembro, antes do Natal: penso que aí já se terá uma visão nítida.

[ Nota adicional: caso não passe dos 48, 49 % provar-se-á que a Imprensa andou com Cavaco ao colo e que a mistificação das sondagens iniciais revela o wishful thinking de uma direita que vê (quis ver) no meu conterrâneo um brilho acima da vulgaridade. ]