Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

17 de janeiro de 2007

Provedor ou juiz? Guardião da verdade ou da moral?

Rogério Santos tem uma crítica ao provedor do Público que é tanto mais corajosa quanto vai contra a corrente actual denominada de “quero os escalpes desses bandidos”. Intitulada a escalada de violência dos provedores, a peça fala do «sistema perigoso, a tocar a estrutura do julgamento popular», que o protagonismo (indisfarçado) de Rui Araújo veio trazer ao cargo de provedor.

«Claro que tem razão no que vem escrevendo, mas, ao publicar as trocas de email com a jornalista acusada de plágio, acho que deu passos além do razoável (coluna de anteontem). A jornalista ao responder “E porque raio haviam de estar colocadas entre aspas, pergunto eu” corria o risco de ser citada no jornal. Mas, da parte do provedor, poderia ter havido alguma reserva de resguardo da privacidade daquela. Assim, esta fica numa posição ainda menos defensável que a da semana passada», nota Rogério Santos.

Se um provedor existe para defender o público dos excessos e falhas da máquina informativa, então o seu primeiro pensamento deverá ir para a avaliação justa dos acontecimentos, nunca perdendo de vista o resguardo dos criticados – sob pena de estar a dar um tiro num pé para corrigir a passada do outro pé.

«Não há qualquer delicadeza da parte do provedor, mesmo quando escreve: “a honestidade e a humildade só nos enobrecem”. E a escalada no tom de apreciação do trabalho jornalístico pode ter repercussões negativas no próprio trabalho jornalístico» (idem). Ou seja: Rui Araújo não resistiu à tentação de dar um raspanete moral através de um ditame popular automático, paternalizando a jornalista — outra atitude muito perigosa caso faça “jurisprudência”, como calculo que algumas almas já antecipam.

Apesar de achar controversas algumas das decisões de Rui Araújo, aplaudi a sua coragem, que considerei uma mais valia que a função de provedor vinha merecendo. Da mesma forma, apesar de achar positivas algumas das suas decisões, pateio a sua atitude de juiz, que considero inadequada à função de provedor do leitor.

Termino com o que considero equilibrado e justo no caso vertente: o Conselho de Redacção do Público entendeu que «existem categorias diferentes de plágio, com «nível de gravidade» diferente, e que o plágio de Clara Barata fica no fundo da tabela».