Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

6 de outubro de 2005

Queriam o quê, pérolas?

QUERIAM O QUÊ, PÉROLAS? Ficou tudo a contorcer-se de gozo, bem feita bem feita bem feita, com a análise de João Pedro George, no Esplanar, à “obra” completa de Margarida Rebelo Pinto. Que o homem é o máximo e escreveu o que vai na alma de tanta gente ao zurzir sem dó nem piedade na “falta de talento” da criatura. Pois.

João Pedro George, um emergente periférico que arrisca dez minutos de estrelato atirando-se às estrelas (ou talvez mais que isso, espera-se, e concordo que há ali talento e coragem), mostrou-se até predisposto a gostar dela, o fenómeno MRP era-lhe simpático. Da leitura conclui sinteticamente isto: que os argumentos são de uma simplicidade confrangedora, o tema sempre o mesmo (sexo mal resolvido ou — pior! — mal feito, embora a escritora, e JPG, falem eufemisticamente em “amores” e “casos”), elas invariavelmente descritas como inseguras e neuróticas, eles não menos invariavelmente uns charmosos com uma pila gigante no lugar do cérebro e que comem gajas em série. Ele continuou a ler, coitado, mais e mais do mesmo.

Mas queriam o quê, com a pressão da “oferta” sobre a “procura” à medida que o povo saiu do tugúrio, se calçou e foi para a escola aprender letras? Querem obrigar os críticos a ler (e criticar) lixo? Espera-se o quê de escritores do mundo de hoje, um mundo sem ideais repleto de cabeças cheias de “convicções” sobre o sexo em geral e o amor em particular saídas dos estúdios de aviar telenovelas? Em que a Grande Preocupação não é sequer o salário ou a educação mas o date da próxima friday night ou quem come quem na telenovela das 9 (quem come quem na política e finança, versão classes A+B, que político tramou qual partido na versão burgueses intelectuais “bem” informados)? Querem o quê do “mercado” livreiro? Pérolas?

Quem um dia presumir da vacuidade da vida contemporânea a partir dos escritores publicados (e não publicados) não se enganará sobre o início do século visto pelo olhar em cliché e a escrita banal de MRP. Goste ou não a elite “autoral” nos blogues, fabricámos uma civilização onde elas são em regra vistas como umas inseguras e neuróticas e eles não menos em regra vistos como umas mono-neuronais máquinas de “comer gajas”. MRP é a “escritora” certa no mundo certo. Há dúvidas?

{ Duas notas adicionais

Uma: não nutro simpatia ou antipatia por MRP, podeis considerar-me neutro em relação à criatura. Quando era leitor da Maxmen passei os bocejos pelas suas crónicas duas ou três vezes até concluir que a vacuidade se repetia de edição em edição, cheguei a voltar à capa para confirmar se não me teria enganado e pegado na revista do mês anterior. Naturalmente, desisti. Sou sensível ao argumento de que mais vale ter escrita light que contribua para criar hábitos de leitura do que simplesmente atirar os leves para o caixote do lixo editorial. Admito, naturalmente, que é um argumento virável do avesso com um sopro mas não perco tempo com o assunto. Ela que venda. Tenho a certeza que a Senhora Dona Literatura e Seus Numerosos Maridos não se importam. Não vem daí mal ao mundo e certamente teremos leitores/as que se entretiveram umas horas. Há formas piores de passar o tempo. E melhores também.

E outra: o ensaio crítico de JPG tem a virtude de confirmar, com exemplos (a memória dos leitores é gloriosamente curta), o auto-copi-pastismo, que se afigura como a principal característica literária da autora. }