Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

12 de abril de 2007

Raisin' my lonely Dental Floss

Frank Zappa é uma espécie de Andy Warhol da música. É um clássico fora de tempo. É um génio incompreendido. É um visionário que compreendeu como poucos o presente e o futuro da cultura urbana. Um iconoclasta do som, um intelectual lúcido, um pai extremoso, um industrial marginal do rock e uma figura incontornável (mesmo que indesejada em tantos círculos) da segunda metade do século XX cultural americano.

Zappa fez muito por mim: estendeu-me a mão e eu saltei para lá do estereótipo do americano bimbo para cair dentro do caldeirão mágico do humor, da irreverência, da lucidez — e da democracia. Podia ter sido outro homem da riquíssima cultura americana — mas foi ele, abençoado. Um faz-tudo — fazia a música, dirigia a orquestra, técnica de solo até hoje por copiar (qual Gaudí da guitarra eléctrica), editava as imagens, escrevia as líricas, dava as entrevistas, se o deixassem desconfio que tinha mandado na Casa Branca com a mesma alegria e desprendimento com que partilhava o palco com dezenas de músicos a quem dava os holofotes, como neste Montana, cuja audição me mostrou uma América em carne viva que eu não conhecia, nem sequer do livro de estreia do João Alves da Costa, que li depois.

(Montana, Frank Zappa)

Ainda hoje Zappa faz muito por nós. De caminho, ouçam a entrevista dele em 1986.