Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

21 de agosto de 2005

Réplica ao Abrupto

Se a diatribe com que José Pacheco Pereira me recebeu neste soalheiro domingo no seu Abrupto fosse por mim lida até Novembro de 2004, eu ficaria intimidado e reagiria a quente, ou seja, como diz a minha mulher, à pTd. Veríamos um fogo de artifício de impropérios pelo meu lado (não do dele, evidentemente), o séquito dele viria a terreiro e mais uma vez seria eu contra a Internet em peso (como aconteceu duas vezes na década de 90). Uma lástima, devo confessar. Mas estamos em finais de Agosto de 2005 e não vou descer assim tanto. A verdadeira razão é porque não me apetece perder tempo, um bem precioso nesta altura, com um livro para finalizar.

1º: Infelizmente, a reportagem a que JPP alude não está disponível gratuitamente na rede – mas tentarei amanhã, segunda-feira, trazê-la para aqui. Porque não se percebe bem o que é posto em causa no Abrupto. Não são os “frágeis dados” – que são, aliás, os mesmíssimos dados que servem a JPP para garbosamente ostentar no Abrupto a sua posição sobranceira na blogosfera.

2º JPP escreveu que a minha “análise” no Expresso, «mais que uma verdadeira análise, é uma opinião pessoal (ou um desejo) para a qual se procuram frágeis dados de suporte».

Com a arrogância de um deus descido aos bits, JPP deixa o leitor na santa ignorância das razões de Querido (como ele me passou a tratar no Abrupto, perdi a cortesia do meu nome profissional) para “desejar” – e nem sequer avança sobre o que terei eu desejado. Deixa-me assim impossibilitado de responder.

Sempre posso esclarecer os leitores de que JPP não tem nada que eu possa desejar, à excepção provável da sua capacidade de leitura. Não tanto por ele: eu é que não sou pessoa de desejar o bem estar ou o mau estar alheio – e muito menos misturaria algo de pessoal com a minha actividade profissional (aqui no blogue é outra coisa, claro).

Mais adianto, sobre a reportagem, que me limitei (se é que o termo é bem empregue) a coligir os dados disponíveis para isso visitando as páginas de gráficos do Sitemeter relativas a uma quinzena de blogues. Fiquei nas mãos com o seguinte gráfico (clique nele para abrir versão maior):

A diatribe de JPP, que me trata como nunca o fizera, e a sequência com que ela surge na página inicial do Abrupto evidenciam que levou o assunto a peito, i.e., pessoalmente. Deveremos concluir que foi por eu ter publicado o gráfico que mostra que o seu blogue continua a ser o mais visitado de todos e tem hoje mais visitas que há um ano? Não… Se bem lhe conheço o tique da vaidade (aqui sim, admito estarmos perante uma opinião pessoal – embora não um desejo), o que o irritou solenemente foi o público do Expresso poder ver que hoje há mais blogues bastante lidos, que o Abrupto já não é o único, que a blogosfera cresceu para além dele.

Na hábil tentativa de denegrir a reportagem, JPP invoca em seguida as referências cruzadas (o Technorati) enquanto elemento fundamental para as “audiências”. Ao longo do texto JPP mistura diversas vezes, espero que não deliberadamente, influência e audiências, tratando-as como se fossem uma e a mesma coisa.

JPP sustenta: «É tão evidente que este é um elemento crucial na análise de qualquer influência na blogosfera que parece absurdo pretender que blogues que nunca aparecem citados na blogosfera possam ser recordistas de audiência».

Eis um argumento disparatado. Equivale a escrever que “é absurdo pretender que o programa Quadratura do Círculo que nunca aparece citado nos tops de audimetria possa ser recordista de influência “, ou “é absurdo pretender que os Morangos com Açúcar que nunca aparecem citados na primeira página nem abrem telejornais possam ser recordistas de audiência”.

Influência e audiências não são a mesma coisa. O Abrupto tem ambas.

A Quadratura do Círculo é um programa da SIC Notícias praticamente sem audiências e com basta influência no meio político. Do outro lado, a telenovela Morangos com Açúcar é campeã de audiências mas a sua influência no dia-a-dia do país é quase nula e na tomada de decisões políticas andará ao nível da influência do planeta Marte: incomensurável de ínfima…

A minha reportagem baseou-se em dados concretos de medição de audiência (maus, mas isso é de outro departamento) e não de influência. Convém frisar, aliás, que a reportagem apresenta mais adiante os blogues com capacidade de influência em determinada fase da evolução da blogosfera (o ano e meses de convulsões políticas, período que naturalmente coincide com o predomínio dos blogues sobre política ou escritos por intervenientes directos nela) como conquistadores de poderes fácticos junto da imprensa escrita e do meio político.

Por outras palavras, a reportagem não dizia mal do Abrupto nem dos blogues de política, antes pelo contrário. Lamento que leituras apressadas desvirtuem – mas it happens all the time, pal.

Tive o cuidado de não enveredar pelo aspecto da influência através do Technorati porque este sistema está também sujeito a deformações de perspectiva. Compreende-se que JPP invoque tantas vezes o Technorati, sobretudo quando levamos em conta que o Abrupto tem uma clara estratégia de afirmação de uma personalidade em determinado meio como reforço da sua capacidade de intervenção no espaço público, neste e noutros meios. Está à vontade para o fazer. Pode impressionar a papalvice que confunde browser com Internet Explorer. Mas eu não posso usar o Technorati como instrumento de medição de influência num determinado campo pela simples razão de que não é isso que o Technorati mede. O que o Technorati mede é a quantidade de hiperligações que cada endereço possui. O Technorati é “cego”, entre outros factores, ao tempo: um link feito para saudar o Abrupto há dois anos permanece na contabilidade – ainda que o autor tenha morrido, deixado aquele blogue ou simplesmente deixado de ler o Abrupto.

Outra cegueira do Technorati que é fatal para quem queira sustentar uma análise com base naquele sistema: o factor-vaidade. O Technorati não nos esclarece sobre quantos dos links directos ao Abrupto resultam da moda (em 2003 e 2004, sobretudo, era de bom tom ligá-lo e os novatos faziam-no quase religiosamente, copiando a lista do Aviz – que sofreu do mesmo mal). Assim, o sistema das referências cruzadas tende para cristalizar e valorizar os mais antigos. Acresce que o Technorati também não nos esclarece sobre os reais motivos que levam algumas (quantas? Não sei mas desconfio que hoje menos que até há três meses, responderei eu) pessoas a ligar um post de JPP na esperança de lhe atrair o olhar ao respectivo blogue e obter a sinecura de uma citação que nesse dia fará disparar as modestas audiências. «Ena, o Abrupto citou-me! :) » – é uma (muito ouvida e lida) frase que cabe melhor num contexto Morangos com Açúcar do que num contexto Quadratura do Círculo.

(O problema aqui é que JPP sabe precisamente do que estou a falar, ele que gere com habilidade quem linka, quando linka e se/quando deixa de linkar. Que arme em inocente é lá com ele.)

O Technorati não mede tanto a influência, mas a celebridade na rede. O Abrupto é uma celebridade na rede portuguesa.

Mas o Abrupto é também um blogue influente. Mais: como deixei patente na reportagem, tem capacidade de aglutinar energias, como se viu recentemente no caso Ota. Isso sim, é ter influência. Obter um grande technorati só alimenta o fogo da vaidade.

Custa-me que JPP valorize o seu umbigo Technorati e diminua, por razões insondáveis, o valor das conclusões da reportagem – cujo objecto principal nem sequer era a influência, ou até mesmo as audiências ou “audiências aparentes”, mas sim a inelutável deslocação de interesses de autores e leitores, patente tanto nos números como nos conteúdos e nas acções que vão hoje pontificando.

JPP não contesta verdadeiramente a reportagem: dá-lhe outro nome, o nome de opinião pessoal (ou desejo). Ao dar-lhe outro nome está apenas a depreciá-la. Não está a analisá-la e muito menos a contrapor-lhe factos. Pretende apenas desvalorizar, relativizar uma reportagem porque esta não lhe agradou. O que JPP apresenta como “factos” “contra” a minha “opinião” são outros factos, é outra conversa. Eu reportei alhos, ele fala de bugalhos.

O post de JPP não tem por isso qualquer valor como crítica.