Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

29 de janeiro de 2008

Respondendo a uma crítica ao DoMelhor (e dados de audiências)

dm2.jpgO Ruben Alves escreveu uma crítica contundente ao DoMelhor. Só lhe tenho a agradecer por isso e faço-o em público, depois de lhe ter dito isto mesmo por e-mail, pois que teve a gentileza de me abordar antes de o publicar. O que lhe disse na altura foi: avance, cá estarei para rebater o que entender.

E cá estou. Vamos por pontos.

1. O que nos dizem os números

A comparação com o Digg muito nos honra, a mim e ao Miguel Vitorino. Quando, há dois anos, lançámos este clone português não imaginávamos o sucesso que viria a ter. Com todas as reticências que tenho a este tipo de serviços, e tenho algumas, o Digg tem sofrido, contudo, de problemas que nem consigo imaginar. Pelo que quando se comparam, há que levar em conta sobretudo as diferenças.

Eu situo o Digg numa galáxia e o DoMelhor noutra. Assim, estamos muito mais perto dos ibéricos Menéame, de cujo código dependemos no início (e para o qual contribuímos na nossa modesta escala de participantes em projectos open source), e o Chuza!. Na Península Ibérica não chegaram, nem vão chegar, as questões morais que assolam a reputaçao do Digg como um fantasma recorrente.

E assim, vou concentrar-me no que me interessa, e no que sei: o DoMelhor.

O substancial da crítica de Ruben Alves é: o DoMelhor, dM para os amigos, está a perder o interesse. Bem, o dele, talvez. Eu compreendo-o: está entre os early-adopters e por isso sente-se hoje desmotivado.

É compreensível.

do melhorMas os números comprovam o aumento de interesse pelo dM. Enquanto escrevo vou ao Analytics e conto acima das 12.500 páginas vistas ontem, dia 28 de Janeiro de 2008, o segundo melhor dia da nossa história. A semana passada foi a melhor de todas as semanas.

2. Onde Ruben Alves tem razão e onde não tem

Mas eu falava do dM: os índices de leitura desmentem a crítica principal do Ruben.

Onde ele tem razão: a participação dos portugueses e dos brasileiros resume-se à submissão, votação e leitura, quando todos gostaríamos de ver algum entusiasmo nos comentários.

E digo: os portugueses porque a pecha não é exclusiva do dM, onde de resto estamos a dar um pequeno salto no número de votos em média na primeira página. Toda a nossa concorrência, e é muita e é boa, regista percentagens de participação equivalentes quando não piores que as nossas.

Onde ele volta a não ter razão: na história da repetitividade dos assuntos. Admito que seja irritante. Mas fica ao Ruben Alves um conselho de alguém que leva muitos anos de ver novatos a surgirem todos os dias com as perguntas que os pais deles já fizeram há 15 anos: sente-se e enfoque os seus interesses.

Nada tem de paternal, o meu conselho. Eu também me espantava com as repetições. Agora, que vejo aí a terceira ou quarta geração de blogues a descobrirem o SEO e o como ganhar dinheiro na net, e a escrteverem sobre esses assuntos como se tivessem descoberto o caminho marítimo para a Índia (e a submeterem os seus artigos no dM, evidentemente), limito-me a sorrir.

Citando-o: “a realidade é que o sítio está literalmente a ser invadido por artigos de interesse totalmente useless a força toda. Um lugar que deixou de prevalecer a componente jornalística, em prole de um enchimento de base de dados com fait-divers que só podem ter interesse a quem insere a notícia. Felizmente, a grande maioria destas notícias nem chegam a aparecer na página principal” (link)

Nem mais, Ruben: a grande maioria desaparece, perdida nas quartas e quintas páginas da submissão, sem nunca ascender às páginas principais.

É exactamente esse o ponto deste tipo de escolha por parte dos leitores: ver o que tem massa crítica para chegar à primeira página e o que não tem interesse suficiente para tal.

(Na verdade, o processo de selecção já é inerente ao jornalismo; numa redacção ficam diariamente centenas de notícias de fora do jornal. A diferença está nos métodos e nas pessoas.)

dm4.jpg

3. E você, acredita nos glutões?

Onde o Ruben não foi mas vou eu. O dM tornou-se, ao longo dos últimos dois anos, no site de referência em Portugal (e começa a sê-lo no Brasil, superando a concorrência local). Apesar de continuar a ser ignorado pelos primeiros beneficiários deste tipo de sistemas: os jornais e meios online. Há pouco Darren Rowse interrogava-se em título: The Perpetual Hunt for the Front Page of Digg OR Blogging for People Who Actually Engage with You?.

Na verdade Rowse citava Seth Godin, um dos poucos marketeers (ou ex-marketeer talvez fosse mais apropriado) lúcidos nos tempos que correm: “Many bloggers seem to be on a perpetual hunt for the front page of Digg. Sure, it brings you hordes of eyeballs, but then they turn around and leave. What’s the point of that, really?

I think that are plenty of tips you can follow to optimize your offering for this fickle mass group. But it’s still a crap shoot. Doesn’t it make more sense to incrementally earn the attention of a smaller, less glitzy but far more valuable group of people who actually engage with you? And the best part is, your odds of success are a lot better” (Who are these people)

Passado para a estratégia dos meios, dá algo como isto: qual é a melhor estratégia para somar audiências, apostar no Totoloto ou construi-las?

O que é melhor: colocar o botão do dM e fazer crescer os links, os votos — e a interactividade com leitores que realmente se interessam pelo produto jornalístico, e não pela vã “glória” de comentar os articulistas em tom impróprio –, ou ignorar o networking de proximidade e colocar o botão do Digg quando as hipóteses de algum dia uma notícia de um jornal (ou blogue) português chegar à primeira página são inferiores às probabilidades de vencer a lotaria?

O Público fez a opção racional e por isso merece o meu destaque e aplauso.