Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

4 de julho de 2006

Ricardo

De besta a herói. É a vida. Algumas “bestas” permanecem na condição, outras precisam de dar duplas provas de superação para passarem a “bestiais”, e a outras, ainda, basta-lhes dar um jeito ao cabelo.

O guarda-redes da selecção nacional Ricardo pertence à segunda espécie. Não chegava ter levado Portugal à final do Europeu há dois anos defendendo um penalti e marcando ele próprio o seguinte. Não. Continuava o país a aviltá-lo invocando o nome de Vitor Baía — esse sim, o guarda-redes “de eleição”, quiçá o “melhor do mundo”. Precisou de defender três, no Mundial, para ser reconhecido e, finalmente, se deixarem de teorias da comparação.

Agora, é vê-los, aos tontos, a “renderem-se” e a fazer mea-culpas ridículos, do género “nunca mais digo mal do Ricardo”.

Ricardo é um herói, sim, mas não do relvado. Defender os três penalties foi a forma de devolver ao grupo o que o grupo lhe deu continuadamente ao longo destes anos: a confiança. Sem juros. Apenas pagar de volta. Deram-me confiança tomem lá defesas. Resultados. Quartos de final.

Ricardo é um herói humano. Um homem que na hora do sucesso diz simplesmente que as únicas mensagens de felicitações que vai ler são as daqueles que «me entopem o telefone quando estou num momento menos bom». Um homem que no final do jogo disse ao companheiro Figo, dois para ti e um para mim — porque Figo nele confiara.

O futebol é uma fábrica de mitos. Ricardo não ficará na história do futebol com um capítulo de mitologia, como Rui Costa e Eusébio e João Vieira Pinto e Vítor Baía. Ficará simplesmente como o guarda-redes português vice-campeão europeu e semi-finalista do Mundial (até ver) por mérito próprio. Simplesmente ele próprio — um guarda-redes, a posição mais ingrata do futebol, a quem se pede o livro do impossível e não se perdoa uma vírgula fora do sítio. Um guarda-redes bem agradecido aos treinadores e companheiros.

Os mitómanos que nunca mais digam mal dele — é tudo o que desejo, capítulo encerrado.