Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

29 de novembro de 2006

Sá Carneiro e o futuro feriado religioso de 4 de Dezembro

Todos os anos, por esta altura, a Imprensa agita-se com as “novas revelações”, as “pistas escaldantes”, as “confissões” (link) “inequívocas” e afiançam-e “novidades interessantes” e outras achas com que se vai alimentando um culto: o culto de Sá Carneiro.

Já não é uma questão política: o partido sobreviveu, nenhum líder ou candidato precisa, já, de invocar o nome de Francisco Sá Carneiro para ficar bem na fotografia, o seu legado deixou até de fazer sentido na medida em que já está integrado no Portugal social-democrata e centrista que se cimentou ao longo das últimas duas décadas e meia. E na Assembleia da República esgotou-se por consenso supra-partidário o prazo de validade das comissões de investigação do caso Camarate.

Já não é uma questão de polícia nem judicial: sem chegar ao tribunal. o caso prescreveu em Setembro deste ano, sendo com grande grau de certeza o assunto melhor e mais exaustivamente investigado e peritado (inúmeras vezes) pelos diferentes agentes judiciais deste país.

Apesar disso não há certezas. Sim. Repito: não há certezas. Há isto: nenhuma prova contribui clara e inequivocamente para a tese do atentado; de uma forma geral (para não escrever esmagadora) as pistas, indícios e provas encaixam na tese do acidente. Um não-crente como eu faz o normal nestas circunstâncias (que, repito, não significa que seja cem por cento certeza). O normal é seguir a via da simplificação. Costuma dar resultados (embora, repito, não haja certezas).

Já não é uma questão de referentes para a direita sociológica: Cavaco Silva acima de todos, mas também Freitas do Amaral (antes de cair em desgraça), Lucas Pires (convenientemente “erradicado” do CDS populista), Marcelo Rebelo de Sousa e Durão Barroso (com o apport tecnocrata e o rótulo de vencedor num quadro europeísta), para não mencionar o caso duvidoso, porque sem profundidade política, do “popular” Paulo Portas, deram referências quanto baste para preencher ao longo de duas décadas as necessidades espirituais da população à direita do PS.

Ainda não é uma questão histórica: enquanto assunto irracional (como veremos no próximo parágrafo), não pode ser tratado com a distância que a História pede.

O caso Sá Carneiro (assim mesmo, como se só ele tivesse morrido, ou então o caso Camarate, que continua a secundarizar os outros mortos deixando tudo centrando em Sá Carneiro) tornou-se já uma daquelas recorrências sazonais como o 5 de Outubro ou o Natal, os fogos de Verão ou o 13 de Maio. Falo da representação pública, deixo de fora por pudor a intimidade das famílias: além da medalhística e da investigação documental-política (coisa pública mesmo que pouco), Sá Carneiro sobrevive no espaço mediático enquanto assunto de fé (há autores que defendem ser uma questão de fé desde o início).

Dentro de um par de anos teremos, estou convicto, um feriado religioso no dia 4 de Dezembro. E não me surpreenderia se, assim o permita a permissividade de tempos que indulgenciem ou apaguem dos registos a sua vida sentimental, vierem netos e bisnetos a pedir a Roma a beatificação de Sá Carneiro, o mártir da democracia. (Entretanto alguém apagará discretamente a frase que fecha a sua biografia de fundador do PPD.)