Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

27 de agosto de 2004

«Nos países ocidentais os índices do HDI não param de subir. O que é que vês de estranho nos índices?» (jcd em comentário à entrada É the kultura, estúpid).

Não percebo. jcd, não vês nada de errado na tua frase? Se esses índices de suposto bem estar só sobem de um lado então não fazem mais do que agravar um desiquilíbrio que tem cinco séculos. O teu bem estar é adquirido à custa do bem estar de alguem noutro lado. A felicidade é mais que o nome de um boneco da Mafalda desenhado por Quino. A liberdade é mais que um pretexto para um bando de iluminados enganar e explorar as maiorias alheias. E quanto a ser o factor mais decisivo na produção de bens culturais deixa-me dizer duas coisas: a melhor literatura portuguesa do século XX, a melhor literatura russa do século XX e a melhor música brasileira do século XX (para citar somente três exemplos) foram produzidas quando esses países viviam em ditaduras, primeira coisa; segunda, a cultura é mais do que um “bem cultural” e, como a felicidade, não é mensurável em índices, que mais não fazem do que expor o ideário e os objectivos de quem os elaborou, de quem escolheu que vectores e trends contam e de dados são desprezíveis. (googla que vais encontrar um relatório a contrapor exactamente os dados desse, vai uma aposta? Eu hoje é sexta, não me apetece.)

(Para os epidérmicos cavalheiros que quiserem reagir intempestivamente à ideia de que é em cativeiro que se produz obra de nível: pensem duas vezes, leiam duas vezes, não foi isso que eu escrevi, não caiam na típica esparrela blogueira da tresleitura.)

A propósito do mesmo texto João Miranda publicou n’A Blasfémia o post Algumas contribuições da revolução russa para a cultura dedicado à minha pessoa. Um tal de AAA acha que eu tenho cegueira ideológica.

Não sei se ria se chore… Mas devo desmontar a bomba que eles prepararam.

«Sobre o bem que o comunismo faz à literatura» é como João Miranda começa insidiosamente o post que em boa hora me dedicou. Subliminarmente deixa nos leitores dele (como se prova com o comentário de AAA, que manifestamente não leu ou leu atravessado o meu texto) a certeza de que eu escrevi ou defendi que o comunismo faz bem à literatura, o que é desonestidade intelectual (e passei a perceber melhor as queixas da malta de esquerda) e abuso da mentira.

Sendo a blasfémia a melhor defesa contra o estado geral de bovinidade, deixem-me blasfemar contra jcd e João Miranda que andam manifestamente bovinos em relação ao capitalismo: ingenuamente eu julgava que o liberalismo era mais do que um garruço para esconder o porco capitalista selvagem típico, jcd obrigado por me teres esclarecido do contrário; eu julgava que a discussão ia mais longe do que “se não és pelo capitalismo és comunista”, portanto obrigado João por me teres tão brilhantemente elucidado através do maniqueísmo mais básico que a Humanidade já conheceu. Podem convencer a papa mole dos cérebros dos vossos leitores e outros basbaques em geral que não distinguem Pasternak de manteiga pasteurizada, de que a vossa escrita não passa de uma falácia. Têm se fazer melhor do que isso, porém, se me querem convencer a mim.