Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

4 de abril de 2007

SellABand: não compre, invista

(Arquivo original publicado no Expresso caderno Economia em 7 de Outubro de 2006)

Não compre música, invista nos músicos. É um novo modelo de negócio para a indústria musical, foi lançado na Europa há mês e meio [em Agosto de 2006] e tem os ingredientes modernos da Internet: envolve produtores e consumidores na mesma experiência, criando espaço para uma win-win situation.

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A SellABand é uma start-up nascida em Amesterdão, fruto da união do visionário Pim Betist a duas velhas raposas da cena musical europeia, Johan Vosmeijer (carreira de décadas na Sony Music, na Holanda) e Dagmar Heijmans (“feito” na EMI, sai agora da Sony BMG). Ao fim de somente um mês de operação o sucesso traduzia-se em mais de 250 bandas de 30 países que em conjunto recolheram 25.000 dólares de mais de 1.500 fãs investidores. A banda holandesa Nemesea estava à beira dos 11.000 dólares no início desta semana, altura em que o EXPRESSO testou o sistema investindo 20 dólares num dos dois únicos portugueses então presentes, o projecto Merankorii.

As bandas inscrevem-se e enviam até três faixas originais, que serão apreciadas por uma plateia mundial. O objectivo é angariarem ali os 50.000 dólares necessários para gravar um CD em estúdio profissional e produzido por um especialista do sector. O sistema aceita qualquer banda, embora se dirija aos músicos em início de carreira.

O financiamento é angariado junto dos próprios fãs de cada banda. Tratados pelo sugestivo nome de “Believers” (os que acreditam), investem “partes” de dez dólares nas bandas favoritas ou promissoras. O dinheiro pode ser canalizado entre grupos musicais. Quando um destes atinge os 50.000 dólares vai para estúdio e cada investidor receberá o CD em edição especial. Mas não só: tem ainda direito a receber uma percentagem sobre as vendas do CD nos canais contratados pela SellABand (que não recebe um cêntimo das vendas) e outra percentagem, calculada ao ano, das receitas de publicidade obtidas pela banda no website da SellABand, onde as suas faixas permanecem para “download” gratuito.

O sistema acaba por resultar em método de descoberta de novos talentos através de um original processo de selecção.

A SellABand aponta às comissões das receitas de publicidade, repartidas entre os músicos, os investidores e a empresa. Parece arriscado – mas Vosmeijer não conta tudo no site da empresa. A SellABand fica com 30 por cento dos direitos de reprodução das músicas, o que significa que aposta tudo na colocação da música nas rádios e nos distribuidores de faixas “online”, como a iTunes.

A angariação de fundos através das redes sociais usando o meio Internet não é propriamente uma novidade. Há dois anos um músico vendeu parte dos direitos de autor para conseguir o dinheiro necessário para gravar. Outros sites têm apostado, como a SellABand, no “marketing” viral. O que distingue este projecto é o facto de ser o primeiro a criar uma plataforma «e de lhe ter aposto um modelo de negócio», explicou ao Financial Times Rob Wells, director da divisão digital na Universal Music do Reino Unido.

Se o modelo pegará ou não, só o tempo o dirá. Marshall Kirkpatrick, “blogger” num dos mais proeminentes divulgadores de tecnologia, o TechCrunch (www.techcrunch.com), foi dos primeiros a analisar a SellABand e frisou «gostar, gostar muito» da «nova ideia de modelo de negócio para a música». Mas lembra que «uma coisa é levar milhares de adolescentes a tornarem-se “amigos” das bandas», aludindo aos mecanismos virais em vigor em sites como o MySpace, outra bem diferente é «levá-los a pôr um número de cartão de crédito para comprar acções numa banda». Kirkpatrick sugere métodos de pagamento mais amigáveis para adolescentes, como os SMS, e montantes mais pequenos. Mas, como admite, talvez esteja enganado. Até porque o sistema não está desenhado para nenhum público-alvo em especial e pela experiência do primeiro mês os seus principais utentes não têm sido os sub-21.

Certo é que a música foi a primeira indústria vítima da Internet enquanto canal de distribuição e é naturalmente a primeira a experimentar novos modelos de negócio. Com um entusiasmo e um empenho tais que se espera para 2006 um número recorde de novas edições lançadas num ano.

Um novo modelo de negócio para a música

1 – O músico ou banda cria um perfil com faixas gratuitas

2 – Os fãs, chamados Believers, investem partes de 10 dólares em bandas da sua preferência

3 – Recolhidos os 50.000 dólares necessários, a banda “ganha” um manager e grava um CD em estúdio

4 – Cada Believer recebe uma cópia em edição limitada

5 – As músicas ficam no mínimo por um ano disponíveis grátis no site

6 – Receitas de publicidade no site são divididas pela SellABand, as bandas e os fãs

7 – As receitas de cada CD são divididas entre as bandas e os fãs