Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

26 de junho de 2007

Série Grandes Empresários do Regime: Joe Berardo sucede a Belmiro de Azevedo

Joe Berardo é a nova coqueluche empresarial portuguesa. Sucede no cargo a Belmiro de Azevedo. Tem sobre este várias vantagens: ganhou o dinheiro de forma não-visível e audaciosa, especula na bolsa, é mais novo, investe em pintura, meteu a PT em sentido e apresta-se para fazer do Benfica um clube do século XXI.

Joe Berardo chegou hoje, por direito próprio, a este webzine. Antes, porém, já chegara à blogosfera — embora esta ainda desconfie dele e o trate mal pois a blogosfera, como é sabido, gosta de capitalistas antigos, despreza a pintura, adora que a administração da PT seja possidónia, e é portista e do PSD ou, pronto, enfim, para o caso até se admite, do CDS/PP, Bloco ou daqueles cinco rapazes que acham que são não sei o quê que acaba em “al” e que já passou de moda até nas alas bushistas mais retrógradas — conforme se pode comprovar via Blogservatório.

José Manuel Rodrigues Berardo chegou, até, à Wikipedia, onde tem um perfil laudatório — e que tem constituído fonte para tanto perfil em jornal, agora que começou o seu percurso mediático (ok: o perfil do seu antecessor no “trono” de empresário poster boy do regime é ainda mais lacónico, mas este a malta conhece bem porque só saiu do burgo em férias, e e).

As vantagens, esmiuçadas.

Não há pachorra para o dinheiro ganho em actividades públicas, notórias e essenciais, como os móveis de raspas de madeira e vender superbocks e outros artigos de primeira necessidade em grandes superfícies. E que dizer de um gajo com óculos dos anos 80 e com ar de quem manda no primeiro-ministro, seja ele qual for? É preferível um modernaço que (também) fez fortuna a partir do nada, mas foi fazê-la longe e em artigos de luxo, como por exemplo o ouro — ficando no ar esse Quarto Mistério De Fátima que consiste na transformação, em plena viagem de avião entre o Funchal e o Cabo, da bolsa de um emigrante na carteira de um magnata.

Supimpa, como diria aqui alguém ao meu lado.

Ter empresas em bolsa é um bocejo. Isto um gajo constroi um empório e depois precisa de dinheiro para investir e vai buscá-lo aos bolsos dos outros, enfim, é tão anos 90, não dá pica nenhuma. Agora não ter produzido nada e jogar, especular, atirar administrações ao ar, fazer pressão, guerras, oh, isso sim, é excitantérrimo! O capitalista do antigamente não capta a atenção dos mongolóides que salivam em frente a um gráfico de cotações da bolsa, mas o novo capitalista, esse Harry Potter do manga-de-alpaquismo também conhecido por management, capaz de acumular pilhas de notas só com truques de informação, poupando até o pesado esforço de dar ordens a empregados, oh, esse sim. Merece a Nossa Profunda Admiração. É Com Homens Como Esses Que Vamos Fazer Crescer A Produtividade E A Riqueza Nacional.

Joe Berardo ainda por cima veste de preto sem gravata, como o Steve Jobs, o que é justamente considerado fino e intelectual simultaneamente, e entrou nos mais finos salões dotados de câmaras de televisão pela mão da não menos fina e exuberante ministra da Cultura. Conseguiu um acordo belíssimo, através do qual a sua colecção de pintura é mantida limpa e acondicionada, para continuar a valorizar-se, sem que ele gaste um tusto. É de homem — e é por ser de homem que o nosso Primeiro Ministro apadrinhou a Estupenda Iniciativa Graças à Qual Os Portugueses Vão Poder Apreciar Uma Das Melhores Colecções De Pintura do Século XX.

Os portugueses agradecem, reconhecidos.

Em especial os benfiquistas, que como se sabe são em maior número que os portugueses em si por causa dos emigrantes e dos Povos De Outras Nacionalidades Que Sabem Quem Foi O Eusébio. Sim, porque O Comendador Berardo (blame Presidente Ramalho Eanes) agora quer fazer de cada accionista do Benfica um ex-accionista feliz e transformar o clube numa fábrica de fazer dinheiro com merchandising, como o Manchester United ou, se não der para tanto paciência, ficamos com o modelo Real Madrid.

Eu acho que vai conseguir: basta ver como os portistas ficaram de monco caído, ainda por cima com o Seu Grandioso Líder em queda irrecuperável que se não se põem a pau ainda acaba em prisão domiciliária — se tiver sorte como Vale e Azevedo.

Belmiro deve agradecer: suspeito que estava fartinho de ter de aturar as câmaras de televisão. O senhor dos pneus é capaz de não achar graça, mas assim como assim nunca o vi achar graça a nada.

Quem também gosta é o Nosso Primeiro Ministro. E se o Nosso Primeiro Ministro gosta…