Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

29 de abril de 2005

Sharecontent

Vai funda a conversa à volta dos conteúdos pagos. Mas é mais um combate de wrestling do que de boxe. Trata-se de uma polémica em torno de uma evolução natural — e legítima — da web e seus “habitantes”. Pelo que um pouco de história não faz mal, pelo contrário.

Ainda antes de conhecermos a Internet já existia, no mundo da informática, um conceito comercial revolucionário: o shareware. Penso que toda a gente já usou, ou usa, shareware. O shareware distingue-se do freeware e das licenças GPL e da generalidade das licenças open source.

O freeware, como o nome indica, consiste em dar os programas de forma totalmente livre, ou seja, sem nenhuma espécie de compromisso entre o autor e os utentes (algum apoio técnico não passará de um exercício facultativo, as mais das vezes prestado pela comunidade de utilizadores). O autor produz o freeware por diversas razões, como a de fazer evoluir as suas competências técnicas com programas reais em vez de simulações de laboratório. Ou então a de se promover, tornar conhecido, conquistar respeito e admiração — valores que acabam, mais tarde, por lhe facilitar a entrada no mercado de trabalho ou o simples recrutamento tarefeiro.

As licenças de código aberto seguem uma lógica semelhante.

O shareware também. A diferença está em que um programa shareware tem (pelo menos) duas versões: a de utilização gratuita e a licenciada, paga. A licenciada apresenta ou funcionalidades indisponíveis na versão gratuita, ou apoio técnico, ou acesso ao autor, ou então uso por tempo indiscriminado (com a versão gratuita limitada a um mês, como é vulgar).

É curioso verificar que as maiores software-houses sempre conviveram bem com o shareware e o freeware, e menos bem com o código aberto. Aquelas não constituem ameaça, apenas assentam num modelo comercial alternativo. Aliás, mesmo grandes casas distribuem muitas vezes programas em regime de shareware. Historicamente, o shareware foi essencial ao rápido desenvolvimento da indústria do software.

Programas que começaram por freeware, evoluiram para shareware e se tornaram comerciais, acabando comprados por alguma das casa grandes. Dos antivírus aos compactadores, os exemplos são diversos. Nuns casos os autores originais mantiveram algum controlo, continuando a testar as novas versões pelo circuito shareware antes de as passar “para cima”.

Do ponto de vista do marketing, o shareware é uma espécie de ovo de Colombo. Trata-se de promover e distribuir um produto pelo mercado, que o testa antes de comprar. É um conceito irresistível para produtores e consumidores. Usou, gostou, quer mais? Paga.

Na “indústria dos conteúdos” segue-se o exemplo dado pelos early-adopters das tecnologias de partilha de informação e conhecimento, vulgo Internet.

[ "Partilhar" não significa obrigatoriamente "dar". Aliás, a partilha é em regra uma troca; que a troca seja feita em espécie em vez de em bens ou serviços, é apenas um detalhe -- e a História do comércio comprova isto mesmo. ]

Hoje, é vulgar vermos as grandes empresas analistas usarem as técnicas do shareware: distribuem livremente conclusões dos relatórios, promovem-nas nos media e entre a comunidade; quem desejar /precisar de aprofundar o tema, adquire o relatório. Ninguém é obrigado a fazê-lo. Uns relatórios / conteúdos são mais apetecíveis que outros, obtendo naturalmente maior sucesso. Este “darwinismo” segue a lógica do mercado livre.

Tendencialmente, os produtores de conteúdos (palavrão que aqui designa qualquer bem passível de distribuição em formato digital) estão a adoptar o “novo” modelo, projectado e testado com amplo suceso na indústria do software. Músicos partilham os seus temas através deste canais, dispensando em parte as labels. Cartonistas evoluem histórias por encomenda dos leitores. Fotógrafos exibem as baixa resoluções das suas obras, vendendo as altas resoluções necessárias à impressão e distribuiçã noutros formatos.

Ao contrário do que supõem os rezingões “velhos do Restelo” cá do burgo, a “comunidade” gosta do modelo e participa com afinco, esportulando os cêntimos necessários (ou as centenas de euros, se for o caso). O modelo é adequeado às necessidades de todos. É um modelo justo para produtor e consumidor. É um modelo confortável e alternativo ao comércio dos átomos.

Penso que o sharecontent, por assim dizer, é uma evolução natural na web. É já uma realidade. Considero natural e desejável promover livremente artigos, textos e análises através do “balcão” que é um blogue, tendo a possibilidade (privilégio de cada um de a explorar ou não, conforme a sua conveniência) de estabelecer com o leitor um acordo comercial para lhe facultar uma visão mais profunda de alguns desses artigos, textos e análises.

Como no shareware, teremos multidões que apenas precisam da versão gratuita e minorias que desejarão aprofundar a ligação ao autor.

Como no shareware, teremos uma incrível, exponencial distribuição de conteúdos excitantes e espectaculares, a esmagadora maioria partilhada sem envolver dinheiro.

Como na indústria do software, teremos na indústria dos conteúdos (de que a blogosfera faz parte) a sã convivência entre informação livre (a maior quantidade, de longe), informação partilhada em regime de troca de serviços, e informação distribuída contra pagamento em espécie.

Não quero “educar” os velhos do Restelo por considerar tonta tal tarefa, uma desdenhável perda de tempo, de resto. Este assunto é mais sério do que isso.

[ Follow-up: há adeptos do "sim" e adeptos do "não". Leia, por ordem decrescente de data de publicação: Bloguismo pago? Carta ao José Pimentel Teixeira; Bloguismo Pago; e Conteúdos pagos nos blogues: conceito e testes. ]