Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

15 de março de 2007

Simplex: simplificar processos ou virtualizar a complexidade?

A pergunta é do Miguel Vitorino, num post cujo título é outra interrogação: Sócrates perdeu contacto com o País real?

«Estão a ver agricultores com mais de 50 anos (a grande maioria) a preencherem um extenso formulário pela Internet? Até eu, que anda por estas andanças há uns anitos, tenho por vezes problemas em preencher online o IRS (raispartam os erros de “Sessão inválida” e “Sessão expirou”!).

Afinal, o objectivo do Simplex é simplificar processos ou apenas virtualizar a complexidade?»

Na verdade, é as duas coisas — e daí o facto de funcionar. Quem tenha lidado com a burocracia recentemente é capaz de, como eu, ter reparado que o nível de eficiência aumentou, quando visto de fora. Quando registei a marca TubarãoEsquilo reparei, com curiosidade, que se manteve a parte inamovível da burrocrácia em todo o seu esplendor: tive de ir a cinco sítios diferentes. Mas simplificou-se e aumentou-se em muito a eficácia: os cinco sítios eram, afinal, cinco secretárias que distavam entre si poucos metros, o sistema de senhas estava aprimorado, fruto do notável zelo de algum… burocrata da função pública, e consegui dar todos os (irracionais, do meu ponto de vista) passos com um sorriso nos lábios, em apenas 15 minutos e no mesmo piso do mesmo edifício.

Notável!!

Na verdade, o Simplex veio agradar a todos. Aos partidários (e até aos fanáticos) da burocracia de Estado (e não só) porque representa MAIS UMA layer, ou camada, entre o sujeito e o objecto. Mais uma layer é sempre bom para a cadeia alimentar das repartições e serviços. Mais um chefe, mais um poderzinho que se exerce, mais um cargo, mais um papel, mais.

Aos cidadãos porque essa é, finalmente, HURRAH!, uma camada intermediária que aumenta a eficácia. Não reduz o número de passos entre o sujeito e o objecto (não: aumenta em um passo, na realidade), e no entanto aproxima ambos. Aproxima funcionalmente, que é o que conta.

Nisso, o Simplex é um furo e qualquer aspirante a governante adoraria ter tido a ideia. No resto, não interessa nada. O Estado é o Estado é o Estado. Enquanto as decisões em Portugal forem da responsabilidade do bloco central, que está fundido com o Estado, toda a qualquer manifestação contra o excesso de Estado e a gordura do Estado e as “reinvindicações” por menos Estado não passam da gritaria demagógica de quem saiu ontem do centro de decisão (onde ajudou a engordar o Estado) ou quer para lá entrar amanhã (onde vai muito inutilmente entrar nos eixos e fazer precisamente o mesmo que os antecessores; um José Sócrates só aparece ao país duas ou três vezes por século).

Portanto, Miguel, virtualizar a complexidade é útil. Simplifica o processo ao cidadão – afinal, a razão de ser do Estado.