Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

17 de fevereiro de 2008

Sócrates já é um estadista, só lhe falta ser hábil na crise

Portugal teve, depois do 25 de Abril, duas figuras de referência e caminha agora para a terceira. José Sócrates tem mais que uma pragmática e desiludida acção governativa, tem mais que sorte (e também tem sorte).

Sócrates até já tem o que só as grandes figuras da política conseguem: inimigos políticos exasperados com o deserto (que em muitos casos eles próprios criaram ou ajudaram a criar) e que sacam das pequenices daquilo a que chamam “carácter” para atingir o homem.

Soares teve Macau (até hoje tem), como Clinton teve Lewinski e os charros, como Sócrates tem um título manhoso e uns prédios feios. Atrás de um grande político está sempre um passado com máculas — ou ele nunca chegaria a grande político.

A Sócrates só lhe falta ser mais Soares (comedido até ao insuportável) e menos Clinton (desbocado para lá dos limites). Não cair na tentação de rivalizar com Cavaco na arrogância, até porque os media deste século são muito mais agressivos que os cachorrinhos acorrentados à trela do Estado dos anos 80-90. E bem basta ter caído no caldeirão dela à nascença.

Em suma, ser mais hábil na gestão destas epidermias, porque ao contrário dos actos — tanto os certos como os errados — o ar do tempo, as teorias sobre ele e os inacreditáveis autores delas não contam para nada nem ficam para a história. Como Soares quando os raros jornalistas que ainda investigavam o incomodavam com perguntas: olhe para o tecto e assobie, ou feche uma cara de pau.