Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

5 de fevereiro de 2008

Sócrates virou-se para onde deve

Para Ricardo Costa, “Sócrates gastou o último cartucho com um tiro de calibre pequeno. Pode ter sido certeiro, mas não era o que o País estava à espera. Sócrates fica mais protegido mas mais sozinho. E é assim que chegará às próximas eleições” (aqui).

O problema da opinião publicada e televista em geral, que é praticamente toda ela afecta à direita, é a sua monocultura original. Dito de outra forma, o tom monocórdico de opinião a que os media “privados” conduziram o país só nos dá uma visão parcelar do assunto.

O “país”, na óptica redutora do Ricardo, corresponde a pouco mais que a franja de indivíduos que o especialista do lugar comum João Miranda classifica no DN de sábado como “as elites qualificadas” entre as quais “a reputação” de Sócrates será putativamente “cada vez pior”.

Na realidade, no momento de fazer alguma coisa ao Governo, Sócrates não podia escutar nem as “elites” — que são irrelevantes, para nossa desgraça colectiva, e cuja maior preocupação social conhecida é muito liberalmente debater a melhor forma de canalizar o erário público para os seus privados interesses — nem muito menos o partido de alternativa, hoje uma manta de retalhos sem rei, roque, príncipes, barões ou sequer seus empregados, ninguém capaz de uma acção substantiva.

A ingenuidade caracterizará os cronistas mas o respectivo objecto não se tem mostrado ingénuo ao ponto de agir em função de irrelevâncias: Sócrates sabe bem de que sítio vem a pancada, não se deixou enganar pelo barulho das páginas de jornais.

Sócrates virou-se para quem tem feito efectivamente combate político — a ala “moral” do PS, com Manuel Alegre, única força política que tem abanado em riste um dedo reprovador, a ameaçar condicionar o festim eleitoral de 2009 para gáudio do que resta da esquerda em Portugal.

E fez o suficiente.

A mais, ninguém o obrigou.

Não há aqui sequer lugar ao espanto. Este primeiro-ministro esvaziou contínua e repetidamente a direita política governando o país com o realismo que exige, em especial, a direita sociológica.