Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

21 de maio de 2007

Sócrates vai pagar caro faltar à promessa eleitoral sobre o emprego

Ao cabo de dois anos e muita barulheira, os números do desemprego constituem o pior contratempo para José Sócrates e o seu Governo neo-realista.

Numa escala de mossas de 0 a 20, o episódio de diversão das suas habilitações não passa de 2, uma negativa profunda.

A actividade de Marques Mendes como “líder” da oposição mal chega ao 3.

As greves gerais atiram-se talvez para um 8 — ainda negativa, pois que correspondem a uma minoria larga e com alguma razão, mas ainda assim minoria e sem tanta razão como pareceria; o cheiro a corporativismo da função pública já teve melhor odor.

O caso Ota vale menos, talvez um 4 ou 5. Gostava que fosse mais, mas a localização do aeroporto, ainda que de capital importância para o futuro de dez milhões, é temática um pouco, digamos, específica e a gritaria das escassas centenas, entre as quais a minha voz, não vale muito.

As críticas dos economistas e políticos com prestígio, de Ferreira Leite a Rebelo de Sousa, poderiam produzir um magro mas positivo 10 na mossa à imagem do PM — mas os elogios que lhe rasgam nas semanas alternadas logo anulam o efeito, até o invertem (dir-se-ia que propositadamente).

No pólo posto está o famigerado silêncio do Presidente Cavaco. Trata-se de um apoio institucional (e merecido) mas é de uma grande frieza: quando chegar a hora de cobrar, Cavaco não hesitará em afogar Sócrates num mar de juros pior que a Cofidis. Por isso, o silêncio ensurdecedor do PR vale 11.

Mas meio milhão de desempregados e, o que é pior, a inevitável evocação da entretanto esquecida promessa de criar 150.000 novos postos de trabalho — eis algo realmente duro para o Governo. Isto, Sócrates vai pagar caro. O valor da mossa situa-se num 14, nota a confirmar nas próximas sondagens de popularidade: aposto que este incidente fará o que nenhum dos outros conseguiu: puxar a linha do gráfico para baixo.

Uma coisa é a indignação das elites e dos intelectuais com assuntos de salão. Outra coisa, muito diferente, é o pulsar da economia real, a que atinge o coração da produtividade: o emprego.