Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

27 de agosto de 2007

Spinning transgénico

Nota de abertura: nada me move a favor dos arruaceiros de Silves nem estou aqui a defendê-los, ou à palhaçada que fizeram. Em princípio, sou cautelosamente a favor do uso de transgénicos. Cautelosamente também, considero-me mal informado sobre o que se passou e sobretudo sobre o enquadramento local (Algarve) da questão dos alimentos transgénicos.

Mário Crespo está a fazer péssimo jornalismo: agressivo sobre o entrevistado, paternalista sobre o jovem, mais juiz que um “tribunal popular”, a recorrer a todos os truques para cortar o discurso ao entrevistado e expedientes para o ridicularizar. E no entanto será aplaudido e certificado pelos comentadores do costume.

Mário Crespo está a fazer desinformação. Estou há vinte minutos a ouvir reprimendas sobre a acção e os propósitos de quem a pratica e não consigo retirar uma frase informativa. E no entanto receberá palmadinhas, as palmadinhas nas costas típicas de uma certa direita que, subtil, mede o sucesso pelo barulho das palmas que dá.

Sempre que o entrevistado — a quem manifestamente não falta consistência argumentativa de base, mesmo que vacilante e (na minha perspectiva) profundamente equivocada — estava a conseguir articular uma ideia, Crespo cortava a fala com “você saberá melhor disso que eu”, matando o assunto. Mesmo que para a ele voltar, qual galinha decepada, 30 segundos depois. Crespo que mostrou estar muito mal preparado para o tema, sendo incapaz de avançar para lá da linha de água das frases feitas tiradas à pressa da “blogosfera”.

Isto é uma não-entrevista, é um debate ideológico entre extremistas — sendo Mário Crespo o pior, porque mais hábil com a palavra em televisão. Sujeito desde o primeiro dia a uma cortina de spinning que procurou a) desvalorizar ou até evitar o debate sobre os transgénicos, b) engrupir os leitores e enrodilhar nas mesmas águas grupos distintos que, no calor da refrega, se puseram a jeito para ficarem indistintos, c) pressionar o o governo e d) levar às manchetes um assunto com o potencial mediático para de lá tirar, piedosamente, o mau espectáculo das directas no PSD, o acontecimento de Silves — sem peso, só por si, para trepar e ficar nos noticiários — depressa se tornou em material de guerrilha ideológica para consumo das elites ociosas.

Não há debate sobre vantagens e desvantagens, sobre necessidade e alternativa, sobre a instrumentalização política de nações para vergar outras. A intervenção, meticulosamente preparada para colocar o arnês nas repercussões mediáticas e cavalgar o assunto na direcção pretendida, inquinou o espaço público e livre.

A partir desse momento em se pega fogo à notícia, cada pessoa contará a história que mais lhe agrada ouvir. Mário Crespo está a contar-nos a história em que ele acredita. Não está a procurar contar a verdade — seja ela qual for.

Qualquer relação deste episódio de terrorismo sobre a opinião que se publica com o país real é mera imaginação.