Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

18 de maio de 2005

Todo o estádio a cantar: um texto sobre o défice

Por alturas de Maio este país em particular, outros países da União Europeia em geral e em modulações diferentes consoante o respectivo grau de civilidade, levanta um sorriso que não o habita no resto do ano. É o sorriso da esperança. O sorriso que ressuma da paixão. Ao futebol o país deve tal sorriso, tal injecção capital de alegria.

Maio é o mês do estádio a cantar.

O campeonato interno só por si já é lenitivo, embora dure menos a fase de apaixonamento e consequentemente sejam menores os efeitos, no dia a dia do país, do reforço de adrenalina. A adrenalina que nos ajuda a suportar o patrão, o cônjuge, as criancinhas, o trânsito, o chato do vizinho. A adrenalina que nos alimenta a combustão do trabalho, intelectual ou braçal, fazendo-nos render mais. Mesmo que seja por dias, semanas ou em casos excepcionais, como a aventura colectiva do Europeu do ano passado, durante um mês inteiro.

Mas quando uma equipa “das nossas” chega ao cume dos torneios europeus, as doses são maiores e de melhor qualidade. É muito forte, felizmente, o impacto ao nível da psique colectiva e nos índices de autoestima (individual e sobretudo colectiva) de uma nossa tribo estar a disputar a liderança com as tribos de países que sabemos (mesmo que o não digamos, por politicamente incorrecto) serem melhores que o nosso. Terem economias melhores que a nossa. Empresas melhores que as nossas. Dirigentes mais sábios e espertos e dotados que os nossos. Sociedades mais ricas que a nossa. Gentes mais felizes que nós.

Quando “um dos nossos”, como José Mourinho, triunfa lá fora é uma coisa boa (mimando o discurso de Artur Jorge). Mas é pouco. Nós sabemos, cá no interior, que somos bons, tão bons como os demais; temos é menos condições. Cá. Se nos derem condições, como a ele (e aos emigrantes em geral), também triunfamos. Mais ou menos consoante as aptidões de cada qual, mas isso é a lei da vida, que é uma lei superior à dos homens.

Agora, ser uma equipa “das nossas”, um clube “dos nossos”, é algo completamente diferente. O FC Porto é um pigmeu da Europa. Como o Sporting. Os triunfos recentes (e menos recentes) dos nossos clubes são uma excepção notória no panorama nacional. Em nenhum outro ramo de actividade foram e vão tão longe, de forma mais ou menos sistemática, agremiações com o carimbo português.

E no entanto tendemos a denegrir os nossos clubes. Em vez de lhes seguir os bons exemplos. O da gestão, nomeadamente — pois é aí que eles se distinguem. Queiramos ou não, os nossos clubes são bem geridos. Melhor geridos, aliás, que praticamente toda a qualquer outra colectividade, agremiação, empresa, sociedade, partido, instituto.

A boa gestão só se mede por um lado. Nos resultados. São estes que fazem a diferença. Qualquer que seja a nossa perspectiva de encarar o mundo, sejamos capitalistas, socialistas, ácratas (como eu), liberais, you name it, é pela obtenção ou não de resultados que medimos o sucesso de qualquer empreitada.

Que importa ser um modelo de correcção se não se obtém resultados? A resposta é felizmente antiga: vitórias morais. Os nossos clubes fartaram-se das vitórias morais e nas duas últimas décadas conquisaram vitórias reais.

O que interessa cumprir as regras se não obtivermos resultados? Ficamos no coração da professora, eternamente grata, mas não temos o nome no quadro de honra.

Gerir bem é gerir de forma a obter resultados. [Nota: entre os resultados estão a imagem e a continuidade do projecto, está bem de ver; logo, qualquer acto que possa ser prejudicial à imagem e à continuidade é um acto de má gestão a médio e longo prazo, que são os prazos que geralmente nos interessam. Em síntese: os fins não justificam todos os meios. ]

Apesar de cotados em bolsa e obrigados a processos de gestão dita “empresarial”, para os clubes de futebol os resultados não se medem em dinheiro. Os dividendos são outros. A produtividade é diferente da que se espera de uma empresa. Ou de um país. Um clube existe para fazer os seus sócios felizes. Um clube não existe para dar lucro no sentido em que hoje empregamos a palavra, referindo-nos a dinheiro. O lucro de um emblema e futebol é a sua sala de troféus, a glória das suas cores, o orgulho da sua massa associativa e simpatizantes. Um clube bem sucedido conquista adeptos (“mercado”?) e admiração fora do seu meio normal.

Um sócio ou adepto de um clube não quer saber, muito justamente, se as finanças do clube passam numa inspecção ou auditoria. Isso são pormenores. O que ele quer são resultados, sob a forma de conquistas. Nuns casos, vitórias em provas de nível mundial, noutros, a superação dos resultados do passado.

Um país não é um clube de futebol. Mas um país também não é uma empresa. Para o “sócio” de um país, ter os livros apresentáveis para os ficais e amanuenses é um objectivo muito, mas muito secundário. O objectivo da gestão de um país não é, ou não deve ser, conquistar a gratidão do mestre-escola. Deve ser, sim, entrar para os quadros de honra. Apresentar resultados!

Os resultados de um país medem-se não pela sua habilidade em ter as contas em dia, mas pela capacidade de empregar os recursos de forma a obter lucro. O lucro de um país é, em primeiro lugar, ter um povo feliz, orgulhoso de pertencer a esse país. Para tal convém ter uma economia produtiva. Um sistema social digno. Empresas competentes. Estado equilibrado. Trabalhadores motivados por salários decentes, para produzirem em superação constante.

Que interessa a um país cumprir regras sobre défices se não alcança os seus resultados?

O pior que pode acontecer a um clube de futebol é (um bocado a exemplo do que se passou com o FC Porto este ano) ficar muito abaixo dos objectivos sem que isso, ao menos, resulte em finanças equilibradas. Numa palava? Esbanjamento de recursos.

Similarmente, o pior que pode acontecer a um país é esbanjar os seus recursos.

O défice não seria preocupação se os recursos tivessem sido usados para alcançar os objectivos.

Não há forma de Portugal dar lucro — isto é que devia ser a preocupação dominante, não a percentagem do défice.