Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

24 de setembro de 2004

Traduzindo a Compta…

Vamos lá espremer e traduzir o comunicado da Compta, a empresa dirigida por ex-ministros do PSD, em situação financeira difícil, e que ganhou a corrida (concurso? dizem que sim, dizem que não, ninguém responde oficialmente) para a feitura do software encarregue de distribuir os professores pelas escolas.

«1. carecem de fundamento sério os comentários públicos que imputam responsabilidade à COMPTA no que respeita a eventuais desconformidades do software para apoio ao procedimento do concurso para selecção e recrutamento do pessoal docente da educação pré-escolar básica e secundária;».

Malta: andamos todos a brincar aos cóbois e não devíamos, aquilo é coisa de gente séria.

«2. a COMPTA repudia o tratamento que ao assunto tem sido dado por alguns sectores, designadamente através de comentários imponderados que criam a ideia, errónea, de que os problemas surgidos com as listas de colocação de docentes se deveram exclusivamente a razões de ordem técnica;»

OK. Ficamos esclarecidos: os problemas não foram exclusivamente de ordem técnica, o que necessariamente implica duas coisas. a) houve problemas de ordem técnica; b) houve problemas de outra natureza (será política?).

«3. cumpre, ainda, deixar claro que o presente esclarecimento não tem um carácter mais exaustivo — que porventura dissiparia dúvidas acerca da responsabilidade da ocorrência — em face do dever de confidencialidade a que se encontra vinculada a COMPTA, no âmbito do contrato celebrado com a Direcção Geral dos Recursos Humanos da Educação, precedido de concurso publico»

Normal… É normal o Estado manter cláusulas de confidencialidade em contratos públicos. Normal e desejável. Pois. Resta saber se: a confidencialidade é, como é algumas vezes, destinada a evitar que a empresa contratada venha a público dizer coisas que o contratante preferia que não dissesse; ou… não, não me vou deitar a adivinhar o que se pode esconder numa cláusula de confidencialidade assinada por um representante da coisa pública com uma empresa privada dirigida por colegas seus de partido.

«4. a COMPTA, pugnando pelos princípios da verdade e da transparência, manifesta-se, desde já, totalmente disponível para colaborar em qualquer inquérito, em sede própria, de forma a que, com celeridade, rigor, isenção e a necessária profundidade, se apurem responsabilidade pelo sucedido.».

Quando falam em “inquérito, em sede própria” está tudo dito, não é? Lamento pessoal: os media, blogosfera incluída, não são “sedes próprias” para fazer inquéritos à conduta de empresas contratadas pelo representante da coisa pública. Metamos o rabinho entre as pernas e toca a disparar noutros alvos, que aqueles já se barricaram.

[ Ainda ninguém aceitou a minha aposta: uma imperial em como a ministra vai c'os porcos, mais mês menos mês, não haverá inquérito algum e a Compta continuará numa nice a concorrer a concursos do Estado. ]