Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

7 de novembro de 2006

Traduzindo uma notícia

Judiciária e Microsoft colaboram na investigação de crimes informáticos

03.11.2006 – 16h13 Lusa

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A Polícia Judiciária (PJ) e a multinacional Microsoft assinaram hoje um protocolo de cooperação na luta contra o crime informático e a promoção da segurança na Internet.

É mais ou menos a mesma coisa que a PJ assinar um protocolo de cooperação com um fabricante de lanchas ultra-rápidas de quatro motores para a luta contra o tráfico de droga e a promoção da segurança no alto mar.

Em comunicado, a Microsoft indica que o protocolo, que se insere no memorando assinado com o Governo português no âmbito do Plano Tecnológico, visa fomentar técnicas de investigação da PJ através da melhor utilização das tecnologias de informação no combate às novas formas de criminalidade informática.

O que significa este parágrafo? Nada. Conteúdo informativo? Exceptuando ficarmos a saber que a Microsoft emitiu um comunicado, o que é efectivamente louvável mas dificilmente se poderá considerar notícia de interesse público, nenhum.

Fico altamente preocupado. A Microsoft quer fomentar as técnicas de investigação da PJ? E esta, deixa?

Já a “melhor utilização das tecnologias” é fácil de perceber: cursos de powerpoint!

O protocolo de cooperação tem uma duração prevista de três anos e vai passar pela avaliação conjunta de ameaças contra o comércio electrónico, propriedade intelectual e segurança na Internet

Três anos!!! Avaliação “conjunta” de ameaças! Uáu! Ou seja, a PJ não sabe nada das ameaças contra o comércio electrónico, precisa de “cooperação”…

E não é uma “cooperação” de uma polícia qualquer, de um instituto de especialistas sem nome, não, nada disso: é da Microsoft. Tiro o chapéu aos misters da PJ: escolheram para “cooperantes” quem realmente sabe o que é uma backdoor, quem domina como ninguém os acessos não-autorizados pelo sistema operativo. É um verdadeiro case-study que — estou em crer — será rapidamente levado a todas as polícias do mundo e até da Europa!

No domínio da segurança na Internet, inclui o combate ao “spam” (envio de mensagens não solicitadas), fraudes financeiras, “phishing” (emails que visam obter dados pessoais), furto de identidades, “spyware” (introdução não autorizada em computadores), pirataria, contrafacção e difusão de códigos maliciosos, como vírus.

Como se disse acima: ninguém sabe mais disto do que a empresa responsável pelo software onde tudo isto se passa! Já viram o que era a PJ ir falar com a Apple, ou a Red Hat, ou a IBM? Oracle? Sun? Bah, fracos. Ninguém está tão bem informado, por dentro mesmo, eu diria, das vicissitudes da segurança na Internet… Na realidade, ninguém sabe tão bem como funciona a mente dos piratas que usam técnicas criminosas de difusão de código, como a Microsoft. Espertos, os tipos da PJ que bolaram este magistral plano.

A Microsoft vai dar formação a elementos da PJ na área dos problemas específicos de segurança das tecnologias da informação, em programas e ferramentas específicas e em domínios específicos, como “Internet investigation”, que permitam aos técnicos da PJ aumentar os conhecimentos de tecnologias relacionadas com o cibercrime.

Chegado aqui, a ironia evapora-se. Resta apenas o meu profundo lamento e consternação. Consola-me a esperança que os bravos inspectores tirem a maior utilidade do tempo previsto para o curso, nomeadamente faltando às aulas.

UPDATE: lamentável lapso, não tinha o link da notícia no Público. Graças à atenção de um amigo muito bem colocado entre os colaboracionistas forçados, aqui fica: http://www.publico.clix.pt/shownews.asp?id=1275422

(via Pedro)