Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

6 de agosto de 2007

Um delírio chamado iPhone: primeiras impressões

Steve Jobs adora aquele momento e têm vindo a refinar-se com os anos. O momento em que leva a plateia da MacWorld ao delírio. Este ano aconteceu no passado dia 9, quando Jobs sacou do bolso o iPhone – o muito aguardado telefone da Apple. E não foi só a plateia da exposição anual do Moscone Center de San Francisco, nos EUA: em menos de 24 horas o mundo inteiro, diz-se, ficou a saber do nascimento de um aparelho prodígio destinado a revolucionar o mercado dos telemóveis.

Um delírio à escala mundial, o primeiro propagado graças ao poder dos conteúdos produzidos pelo utilizador. Os videos promocionais espalhados pelo YouTube e replicados pelos blogues e a pouca informação, em sound-byte, espalhada de forma viral pela web contagiaram também os media e Jobs obteve uma audiência realmente planetária para um produto que não passa de um sonho.

Foi de tal forma que a mudança de nome da Apple – um acontecimento que por si só é notícia – passou totalmente despercebido. Sim, é verdade: no dia 9 a Apple Computer Inc perdeu a palavra do meio. Adeus computadores.

«Queremos reinventar o telefone», disse Steve Jobs apresentando o iPhone. Um delírio calculado. Uma vez apagadas as luzes, conferimos a informação. Como telemóvel vulgar, não tem 3G (ver quadro) e algumas soluções (como o teclado virtual) já foram abandonadas pelos pioneiros que as experimentaram antes. Faz mais sentido vê-lo como um iPod evoluído. Só estará disponível nos EUA, o mercado de destino, em Junho, ou seja, o público tem seis meses para se recompor do delírio e a concorrência o mesmo tempo para se defender, sem reinventar nada. A menos que mude muito, dificilmente esta primeira versão terá saída na Europa, se cá chegar pelo próximo Natal: o preço da ordem dos 400 euros torna-o inacessível fora do nicho dos compradores de “gadgets” e nenhum operador subsidia sem fortes contrapartidas um aparelho tão caro.

Embrulhadas no delírio a maior parte das características parecerá nova, mas está longe disso. O mercado tem já uma diversidade de aparelhos capazes de ler e-mails, ligarem por Wi-Fi à Internet, com browsers para navegar na web ou por WAP e ao mesmo tempo reproduzirem MP3. Alguns até têm GPS. Nenhum possui um giroscópio para manter as imagens na horizontal quando rodamos o aparelho, é certo.

Os analistas mais realistas, capazes de ver que a promessa de revolucionar o mercado é eventualmente exagerada, foram apelidados de cépticos. Mas não passaram dois dias, sequer, para Jobs ser chamado à realidade: a Cisco Systems, proprietária do nome iPhone que usa numa cadeia de produtos da subsidiária Linksys, processou a Apple pelo uso indevido da designação. O CEO da Apple decidiu arriscar na MacWorld sem levar no bolso o contrato que andava a ser negociado pelos advogados. O sonho pode virar pesadelo.

Positivo

1. Design. Primeiro ponto forte da Apple, foi uma vez mais levado ao extremo do requinte.

2. Ergonomia. Pelo que foi dado observar, o aparelho é extremamente fácil de manejar e a navegação intuitiva (é o segundo ponto forte da Apple).

3. Sensores. Entre os aparelhos cegos e surdos que nos limitam, o iPhone consegue ir mais longe aprimorando o lado cego: sensores de movimento ajudam a dar comandos. Falta experimentar, pois só os vimos usados por homens da Apple, treinados.

4. Ecran. Dizem-no muito convidativo ao toque, o que é bom. Tem alta resolução e, à custa do teclado, um tamanho extraordinário num aparelho destes

5. Organização. Descurada pelos fabricantes, a navegação facilitada entre as listas de chamadas foi aproveitada pela Apple para brilhar.

Negativo

1. Sem 3G. A terceira geração móvel não chegou aos EUA e esta primeira versão do iPhone será testada naquele país. Talvez a segunda versão contemple a Europa: sem 3G, só vende aos mesmo muito fanáticos da marca.

2. Time to market. Cinco meses até atingir o mercado caseiro, praticamente um ano (prevê-se na Europa no próximo Natal) para o resto do mundo. É demasiado hype, que pode estressar as vendas.

3. Custo. Proibitivo, como é norma da Apple. Um telefone não se vende como um iPod. Vende-se subsidiado pelos operadores. Quem subsidiará um aparelho sem 3G e com um preço de 500 ou 600 euros?

4. Sem teclado. O ecran fica a ganhar, mas a experiência dos aparelhos com teclado virtual não é concludente: os ecrans estragam-se mais depressa, além do problema da gordura que se acumula.

5. Fechado. A Apple funciona em circuito fechado. Ninguém poderá fazer aplicações para o iPhone e nenhuma loja, ou operador, poderá vender música para download.

(Expresso, 20/01/2007)