Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

6 de dezembro de 2004

Um problema chamado Sampaio

É do senso comum que a actual geração de políticos é pior (seja a palavra o que for) do que a anterior. Eu próprio tenho o péssimo hábito de absorver o pensamento comum e propagá-lo ANTES de reflectir com os meus botões. Quando o faço descubro amiúde que o senso comum stinks.

Talvez o possamos dizer ao nível de Grandes Figuras — e mesmo aí com reticências: a política ela própria mudou deslocando-se para o (i)mediatismo, de um lado, e do outro a política caseira perdeu importância com o deslocamento das decisões para a União Europeia.

Não há hoje figuras como Mário Soares, Francisco Sá Carneiro, Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, Ramalho Eanes, Aníbal Cavaco Silva. Foram substituídos nas lideranças por figuras que não comovem corações, não despertam paixões (e ódios), não arrastam multidões. Eventualmente a actual geração será até mais competente a vários níveis; qualquer dos citados tinha alguns problemas de relacionamento com os media, para não mencionar os “dossiers”.

Freitas do Amaral dava um livro. Hoje olhamos para ele como um homem que veio da direita para o centro-esquerda. Foi (é) acusado dos mais perigosos desvios de cartilha. Na realidade o discurso de Freitas pouco mudou, além de alguma modernização decorrente dos tempos e das modas. Quem mudou foi o partido onde se destacou. À altura de 1974 o CDS representava o centro-direita e tinha um discurso moderado. À direita dele existiam diversas organizações que — essas sim — representavam tanto os conversadores como os saudosistas do antigo regime como os ultras. O CDS ocupava na perfeição aquilo que hoje se designa por “centrão” político — enquanto o PPD por seu turno começou por ser um partido claramente de esquerda moderada bebendo a cartilha da social-democracia. Da esquerda para a direita, o PPD era a primeira estação que não tinha o socialismo na cartilha (embora o usasse nos cartazes e nos discursos…).

Os partidos mudam. Freitas do Amaral manteve-se no mesmo sítio.

Mas Freitas não é um problema, chega aqui apenas como exemplo dos maus julgamentos “populares”. O problema do país chaama-se Jorge Sampaio. Na esquerda à esquerda do PS, eventualmente até do PCP, debutou numa desinteressante zona de opinião política até esta ser engolida pelos socialistas. Atalho caminho até ao presente: da presidência sem história da CML Sampaio teve um primeiro mandato como PR sem sobressaltos num estilo mais perto do “corta-fitas” de má memória do que do guerrilheiro interventor que fora Soares. Até certo ponto isso valeu-lhe a paz. Do povo, cansado de guerra, e da classe política para quem os incomodativos são sempre um pauzinho na engrenagem da demagogia.

A braços com a crise do Verão, Sampaio deu uma de Grande Estadista: passou duas semanas a ouvir toda a gente, incluindo o periquito da dona Franquelina, antes de tomar uma decisão perigosíssima para o país a que presidia (preside). Tinha então sustentabilidade formal para antecipar eleições. Não o fez. Motivos apresentados: não perturbar a economia, não parar o país por quatro meses.

Agora, sem sustentabilidade formal para tomar a decisão, Sampaio manda o primeiro ministro para casa fazer o homework “como formar um governo e dirigi-lo”, mergulha o país económico numa indefinição que poderá custar não quatro meses de paralisia mas um ano inteiro de tremenda confusão, deixa a direita baralhada e o PSD semi-aflito, condiciona o percurso pré-eleitoral das próximas presidenciais e autárquicas, atira José Sócrates e o PS para uma arena para a qual não estão minimamente preparados.

O país social fez as pazes com o presidente. Mas não há razões para isso. Sampaio deu-nos um presente envenenado. Como isto estava, talvez fosse melhor deixar Santana Lopes entregue aos bichos dos dois partidos da coligação. Partir a loiça nesta altura não adiantará nada, mesmo dentro do PSD: os barões que se opunham a Santana Lopes não terão tempo de afinar discursos e se organizarem para o combater internamente, apresentando uma alternativa. O ex-vice-presidente do partido tem o lugar assegurado (só espero que faça uma equipa boa, desta vez).

Ganhe ele as eleições e a turbulência entre os sociais democratas continuará a fazer mossa da governação com os custos evidentes para o país.

Ganhe o PS as eleições, constituirá necessariamente um governo fraco. Sobretudo se o fizer sem o Bloco de Esquerda. Sócrates pode dizer o que quiser (ou o que dele se espera) que a realidade não muda. O PS não se mostra preparado — nem ao nível das figuras nem ao nível do discurso sem centelha que tem balbuciado discretamente nestes últimos meses, entregando a bandeja da oposição aos franco-atiradores do PSD e aos activistas do Bloco, verdadeiros martelos pneumáticos da nossa actual democracia.

Pessoalmente, acho que o PSD com Santana Lopes vai ganhar. Só não arrisco sobre o PP; parece-me à partida que desaparecerá, mas pode depender muito das respectivas campanhas. Santana Lopes é bom na TV e na retórica, Paulo Portas é um homem-elástico e um incansável feirante (o verdadeiro sucessor de Soares-pai na matéria). O PSD é um partido com uma sede de poder tal que consegue até calar a democracia interna com o fito de dominar o aparelho de estado — a sua única razão de vida (esqueçam isso do “melhor para o país” e treta avulsa).

No entanto devo acrescentar que há uma variável que pode alterar esta minha expectativa-quase-certeza. Esta é a altura em que a massa cinzenta do país ainda não modelada aos aparelhos partidários pensa duas vezes no salto. Esta é a altura das oportunidades. Das apostas.

Se a massa cinzenta entender que o PSD de Santana Lopes é pouco sexy no que toca a distribuir cargos, mordomias, benesses (e também cargos, porque há pessoas que gostam de ser realmente úteis ao país sendo isso que as move nesta altura) e fizer fila no Largo ao Rato para prencher fichas de inscrição, então Sócrates terá hipóteses com um partido renovado ao nível dos pensadores. António Vitorino é uma pessoa competente e poderá, mesmo contra o relógio, arquitectar a teia de ministros, secretários de estado, conselheiros, etc capazes de vencer as eleições.

Fois a estes dilemas que um Jorge Sampaio sem estaleca conduziu o país. Hoje um parlamento rigorosamente destrambelhado, com uma legítima maioria sem poder nem rumo, aprovará por obrigação presidencial um OE elaborado por um governo que já não o é (veja-se que o Primeiro ministro nem lá foi de manhã… eu também não ia, fodei-vos, caralho!). Um OE bastardo para o futuro governo, seja ele qual for. Um ano de perturbações na função pública e no privado. Oito meses (e não os quatro que já teriam terminado se Sampaio tivesse sido homenzinho na altura certa) de confusão política. Cavaco, Guterres e Rebelo de Sousa adiados. Caciques autarcas a esfregar as mãos com as atenções todas noutros lados. Desnorte absoluto, com abertura à pilhagem, na distribuição dos fundos dos Quadros Comunitários.

E ainda há quem bata palmas. Em rigor, só mesmo os bloquistas as podem bater com legitimidade. Nós, o povo, nem por isso.

Pós-escrito necessário: esta pequena análise revela as minhas preocupações no imediato do país mas não os meus sentimentos profundos de prazo alargado. Admito que mais vale tarde do que nunca e oito meses perdidos e um ano de confusão podem ser melhores, a longo termo, que a governação desastrosa da equipa pobre e de líderes desgarrados que tivemos ultimamente. Mas isso só o tempo o dirá. Pssoalmente gosto da agitação eleitoral; é das raras alturas em que há debate político e social, ou seja, uma oportunidade de todos praticarmos a democracia em que dizemos que gostamos de viver. E as ideias são mais importantes que as bolsas. A longo prazo, são.