Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

3 de abril de 2006

Vamos embora bobby que já enganámos mais um

As “notícias” (na verdade, press-releases que a Imprensa distribuiu cegamente e as televisões divulgaram sem sequer confirmar as, ou distanciar-se das, afirmações entre o falso e o controverso, como o decréscimo de 40% nas vendas) segundo as quais a indústria fonográfica vai processar os portugueses que roubem (sic) músicas na Internet (roubem a quem?) não são para levar a sério. As preocupações de alguns comentaristas e bloggers acerca dos processos são legítimas mas exageradas.

bobby.jpgO que a RIAA pretende com esta ameaça é tornar cada jornal, cada rádio, cada televisão num bobby: a presença dos símbolos da autoridade é suficiente para dissuadir carteiristas &demais PMM (pequenos e médios meliantes) de atacar nesta rua (devendo mexer-se rapidamente para onde não haja bobbies à vista).

A comparação não fica por aqui: tal como os bobbies, os instrumentos de combate ao crime não passam de… um apito. A meia dúzia de PMM que, apanhada numa esquina do KazAa, tiver o grande azar de servir de poster da “eficácia” deste “combate” ao inevitável passará a humilhação pública no primeiro momento, e a solidariedade social no momento seguinte (este filme já passou nos países avançados antes de descer ao palco das periferias).

A RIAA combate moinhos de vento. As verdades nuas e cruas são estas, e seria bom que a sociedade, primeiro, e os legisladores depois reflectissem: uma, a divulgação e distribuição de música e entretenimento mudaram radicalmente e a RIAA, apesar de repetidamente alertada para a situação desde final da década de 80, fez questão de ignorar os avisos e de excomungar os avisadores. Francamente, merece o que lhe está a acontecer. Duas, elaborada a partir de finais do século XIX em sucessivas camadas correspondentes ao avanço de um nova técnica, a legislação destinada a defender os proprietários dos “direitos de autor” (eufemismo para os contratos com que os produtores foram escravizando os artistas, acabando por os despojar das suas próprias obras) está velha, arcaica e totalmente desajustada do mundo em que vivemos. Faz tempo.

Mesmo os advogados que estão neste momento a defender os donos dos autores sabem que isto é verdade. Mas, compreensivelmente, têm de ganhar a vida.

“Pirataria” e “roubo” não passam de palavras de ocasião. Os antepassados da RIAA gritaram o mesmo quando apareceram os rolos, idem quando o vinil entrou em cena, fizeram uma tempestade tremenda com as fitas magnéticas e resistiram ao CD. Curiosamente, os lucros foram sempre aumentando com cada um destes shifts tecnológicos… dando razão ao ditado popular que reza: quem não chora não mama.