Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

3 de outubro de 2004

Vamos por partes

Monty fez uma análise sobre As Liberdades e a Blogosfera que merece reflexão. Já lhe disse que iria um dia destes responder — porque concordo aqui e ali, discordo do tom geral apocalíptico. Mas não é agora que lhe respondo. Agora quero apenas pôr uns pontos nos ii porque nesse texto e respectivos comentários fui interpelado enquanto integrante da equipa do weblog.com.pt. Vamos por partes.

«Paulo Querido é um pouco avesso a impor limites e restrições». Pouco avesso é eufemismo.

1º Sou incompetente em matéria de julgamentos de eventuais delitos de opinião. Há instâncias competentes. Na Justiça. O aparelho judicial tem leis que balizam os comportamentos individuais. É essa a instância para dirimir casos de difamação, conteúdos ilícitos, e por aí fora.

2º A minha direcção do projecto weblog.com.pt é eminentemente técnica e de estratégia comercial / serviço público (sim, o projecto tem as duas vertentes, não necessariamente auto-exclusórias).

3º É favor ler as condições de utilização do weblog.com.pt (actualizadas na semana passada) ANTES de chamar a equipa a putativas intervenções fora das suas competências.

4º No weblog.com.pt todos os blogues são iguais em matéria de direitos e deveres legais. Os respectivos conteúdos são da responsabilidade dos seus autores. Como se recorda bem claro nas condições de utilização, a «definição de conteúdos ilegais não é feita pelo weblog.com.pt mas sim pela legislação em vigor em Portugal e na União Europeia».

«Em relação à Weblog eu percebo o Paulo Querido e a dificuldade do seu trabalho, acho que só deve fechar-se um blog num caso extremo » (Boss, nos comentários).

Thanks Boss ;)

2º No weblog.com.pt estão albergados blogues de todo o especto político, incluindo a extrema direita, ou direita nacionalista (não sou grande coisa a posicionar e apelidar ideários). Estão albergados blogues de todo o tipo, aliás. Uns mais bem educados, outros de linguagem desabrida, alguns com conteúdos a roçar os limites da decência. Quiçá, aqui e ali, alguns podem ter ultrapassado as fronteiras. Da mesma forma que quase todos os dias quase todos nós desrespeitamos regras (do trânsito viriam centenas de exemplos…) sem que por isso nos caiam as polícias em cima, também naquele espaço não existe um policiamento rigoroso que apure e puna todas as infracções. Acredito nas virtudes da auto-regulamentação.

3º A equipa do weblog.com.pt não é um árbitro de conflitos de opinião. A opinião é rigorosamente livre naquele espaço. Esta regra é de ouro. Quem não a aceitar tem o direito de mudar de alojamento, deixar de ler, etc. Não tem o direito de a tentar mudar.

4º A intervenção da equipa neste tipo de questões só poderá acontecer por:

a) ordem de tribunal;

b) circunstâncias especiais a isso obriguem antes de uma ordem judicial.

5º Por circunstâncias especiais entendam-se situações que ameaçem a integridade do projecto. Física e reputacional.

6º Apelos extraordinários de parte significativa e representante da comunidade serão analisados para eventual, mas não obrigatória, decisão.

……………………..

Agora entra o tom paternalista e estejam à vontade para me zurzir.

A ideia de que é possível acabar com os blogues é peregrina. Não é possível acabar com os blogues. Só um cataclismo natural (ou provocado pelo Homem) de proporções nunca vistas poderia acabar com a Internet e por conseguinte com os blogues tal como estes existem.

Acabar com a blogosfera por decisão política é uma ideia ridícula.

Era bom que os autores mais newbies, ou mais recentes utilizadores da Internet, percebessem mais rapidamente o que é uma flame e agissem em conformidade. Na comunidade digital a inflamação de discursos, opiniões e posições é rapidíssima. É facílima. Perdemos a cabeça por dá cá aquela palha. Cuidado. Bem vistas as coisas, não deve um indivíduo que se preze deixar que uma palha lhe tolha os movimentos e o raciocínio. Para não falar da sua reputação.

A reputação é a coisa mais importante que temos no universo online. É quase a única coisa que temos, bem vistas as coisas.

Recomendações aos mais inflamáveis: antes de responderem / atacarem o que quer que seja ou fazerem concursos de tamanho de pilinha respirem fundo / fumem um cigarro / batam uma / deêm uma curva ao parque mais próximo, ouçam os passarinhos chilrear e dêem uma moeda ao andrajoso pedinte do canto e só depois voltem para o computador e reflictam sobre se: a) querem mesmo responder / atacar, b) estão preparados para as consequências (do outro lado pode estar alguém tão inflamável como vós e vai haver merda, garantido), c) aguentam-se à bronca sem terem de chamar o mano mais velho, e d) terá o assunto assim tanta importância?

Um pouco de gelo não faz mal a ninguém. Antes pelo contrário. A blogosfera é uma dávida. Saibamos usá-la a nosso favor. Individual e colectivamente falando.

A finalizar não resisto a transcrever um comentário de Zecatelhado ao citado texto:

«Cá o Zecatelhado não percebe muito bem o que é isso do “excesso de liberdade”(???!!!). Cada um é livre de pensar e dizer o que lhe vai na alma, amigos. Se alguém se sentir muito ofendido recorra aos três meios mais comuns:

1. – Responder por escrito ao parceiro com quem abriu litígio

2. – Recurso aos Tribunais do Estado.

3 . – Em dado dia, hora e local, encontram-se os contendores e resolvem tudo à chapada.».

Se queremos manter a liberdade conquistada (não falo em Portugal, falo da Humanidade) devemos estar preparados para aceitar as suas duas consequências: a responsabilidade e a irresponsabilidade. Sendo que para esta última estão legisladas regras suficientes.