Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

9 de junho de 2007

Waazaaaaaap! (uma viagem à Campus Party)

Relato de quatro dias de arromba na Minho Campus Party, o maior acontecimento tecnológico em Portugal.

(A seguinte prosa foi publicada originalmente na revista Única da edição do Expresso de 7 de Agosto de 2004. Repete-se aqui a publicação digital como forma de prenunciar a Campus Party Portugal, evento descendente desse a que assisti e no texto reporto. Do meu lado a promessa do final vai cumprir-se: eu e a Catarina estaremos presentes, embora desta vez os meus ossos dispensem de bom grado a tenda e não valha a pena a caixa de CDs suplementares.)

Já estamos instalados com os dois computadores ligados e a funcionar há uns bons 20 minutos quando ouvimos o grito ecoar pelos 10.000 metros quadrados que este ano acolheram a Minho Campus Party, MCP para os amigos. Centenas de gargantas fazem coro, a Catarina olha-me surpresa. Limito-me a sorrir. É estranho e arrepiante mas depressa se torna familiar. Em breve juntamos as nossas vozes ao coro que grita «Waazzaaaaaap!». Está apresentado o símbolo do acontecimento: um berro gutural espontâneo soltado dezenas de vezes ao dia durante os cinco dias que dura a maior festa “geek” realizada em Portugal.

É preciso descrever o ambiente para compreender o símbolo. Estão perto de 2.000 pessoas no mesmo espaço, este ano o parque de estacionamento subterrâneo do novo e lindíssimo Estádio Municipal de Braga. Sejam participantes (cerca de 1600), sejam membros da organização (160 para mais), praticamente todos estão a teclar frente a um monitor. O som ambiente é mais baixo do que seria de esperar. Largas centenas de pessoas e silêncio, eis uma combinação rara. É quase como numa igreja só que aqui a actividade é frenética. A maioria participa em jogos cheios de acção e ruído: se não fosse proibido o uso de colunas (usam-se auscultadores) o barulho seria caótico, ensurdecedor. De tempos a tempos o grito surge. Umas vezes é uma única voz que berra, noutras um grupo previamente combinado através do canal de IRC lança o grito em uníssono. De imediato há réplicas com dezenas, centenas a fazerem coro. As repetições duram três, cinco segundos no máximo, e logo regressa o relativo silêncio. É uma maluquice, certo. Mas é a forma de todos dizerem que estão ali, vivos, presentes também de corpo uma vez que a sua presença é sobretudo virtual, através da rede, e a interacção mútua passa quase em exclusivo pelos cabos. É o sinal de comunhão.

HORRÍVEL! NÃO HÁ COCA-COLA!

Para a integrar no ambiente deixo a minha filha procurar por ela própria a explicação do «wazap», também grafado “wazup”. É uma abreviatura corrompida de “what’s up” e remonta a um anúncio publicitário que esteve na moda nos EUA há anos. A MCPTV (Minho Campus Party TV, a emissora de televisão que este ano se estreou no evento) passou o respectivo “clip”. Perdida para sempre está a oportunidade de saber como e porque começou esta estranha tribo da Internet a usar o grito. Perguntei a diversas pessoas que estiveram nas outras três MCP. Ninguém recorda. O berro tem evoluído. Este ano houve uma “nuance” em Português com um «ózééé!» que, gritado, soa quase igual. Há mais berros soltados enquanto expressão colectiva de um grupo que apesar de estar junto comunica quase exclusivamente através dos dedos em cima do teclado e do rato. Na sexta feira, tarde em que o calor se fez sentir, cada intervenção da porta-voz que anuncia os eventos (fases dos jogos, provas de telemóveis, conferências) era calada com um sonoro «Água! Água!» Um protesto a dois níveis. Primeiro, contra o barulho pois a aparelhagem sonora nunca acertou com o volume. «Tínhamos poucas colunas, para o ano temos de espalhar mais pela sala, de forma a poder fornecer um som decente», explicou-me Filipe Vale, membro da Associação Industrial do Minho encarregue da comunicação da MCP. Segundo, a falta de abastecimentos líquidos. Em termos gerais esta quarta MCP foi a melhor a quase todos os níveis, o que é reconhecido por toda a gente, dos participantes à organização. Porém, noutras edições as bebidas (água e coca-cola sobretudo, mas também as energéticas) não se esgotavam nunca por mais de meia hora; desta vez quase não havia bebidas na sala e, horror dos horrores!, o bar não vendia Coca-Cola ou, vá lá, Pepsi, mas sim uma cola de uma marca impronunciável.

A noção de que as coisas estavam a correr bem, tive-a mal entrámos no recinto. Chegámos, pai e filha, ao fim da tarde de quinta-feira, o segundo dia. Segundo dia é forma de dizer porque na realidade o evento é declarado aberto por três vezes. A primeira na tarde de quarta-feira quando se abrem as portas e o fluxo começa a entrar. Vêm em grupos ou sozinhos, os mais novos trazidos pelos pais (há quem use a MCP como um mini-campo de férias, baratíssimo atendendo aos 70 euros da inscrição com direito a rede, energia, tendas, lavabos e três refeições quentes por dia) e fazem uma longa fila. Este ano o tempo de espera nunca superou uma hora, para alívio geral. Em 2003 houve quem desistisse indignado com as seis horas da fila. A segunda abertura é o momento solene, com contagem decrescente, em que os “routers” passam a fornecer à rede interna conectividade para a Internet – geralmente acontece à meia noite de quarta para quinta. Finalmente há a inauguração pomposa: ministros e autarcas, rodeados de um séquito de jornalistas episódicos e assessores de Imprensa zelosos, fazem o “tour” da praxe entre a maquinaria que sustém a rede e as filas de pessoas ligadas à máquina e passam revista a colaboradores, seguranças e pessoal da Cruz Vermelha, tudo aprumado e ainda sem olheiras. As imagens que passam depois nas televisões são captadas nessa altura. Correspondem a um vôo de mosquito sobre o evento.

BITS E AMENDOINS

Chegámos nesse preciso momento, pelo que, na minha qualidade de jornalista, lá fui arrastado pelo séquito, desconfortável na minha “t-shirt” de guerra e com uma filha de 11 anos ansiosa por se ligar à máquina. Mas aproveitei para sacar informações. Porque é que a Portugal Telecom decidiu este ano apostar tanto na MCP? Porque tinha necessidade de boa comunicação e nada de relevante para comunicar. Daí que tomou de assalto os media – ao ponto de parecer, a quem lesse os “takes” da agência noticiosa oficial, que a PT é a grande responsável pela Internet do Futuro, pela Minho Campus Party e ainda a Grande Inventora do IPV6 e arredores… Dei os parabéns ao responsável: do ponto de vista dele, o assalto ao castelo jornalístico foi uma vitória. PT, 1-Jornalismo, 0. Quanto aos verdadeiros organizadores, a Associação Industrial do Minho ficou estrategicamente contente com a colagem da PT porque esta garante à MCP maior amplitude mediática, o que vai no sentido do seu objectivo principal: dar a conhecer o Minho como a principal região do país em termos de novas tecnologias. O que permite duas coisas: captar investimento de fora e sobretudo assegurar condições para que o capital técnico e humano desenvolvidos na região, com forte destaque para a Universidade do Minho, assente praça por lá em vez de ir alimentar as economias lisboeta e portuense. Bem visto.

O investimento da PT no acontecimento fica-se na realidade pelos amendoins. O sapo insuflável gigante coloria a entrada do recinto que de outro modo passaria despercebida. Os 455 Mbits de conexão entre a MCP e a rede da PT, com um estrangulamento posterior para cerca de metade em termos reais de Internet, são trocos para o operador incumbente. E o “staff” cumpriu a sua função de aparecer nos momentos-Imprensa e deixar o pessoal da Cisco, Universidade do Minho e Eurotux trabalhar em paz no resto do tempo. Os interesses são outros. Até aqui a MCP tem dependido da conectividade da PT, único operador capaz de garantir tamanha ligação, mas no próximo ano o cenário adivinha-se bem diferente. «Até eu ponho cá facilmente dois Gigabits e a preço simbólico, tenho a fibra a dois quilómetros, bastará negociar com alguma antecedência», garantiu-me um amigo de um operador em expansão. E, claro, no Verão de 2005 já deverá estar operacional a ligação de 2 Mbits da Universidade do Minho à Internet graças a um acordo firmado há menos de um mês com a Refer Telecom, num concurso que a PT… perdeu. Portanto, a AIMinho tem as costas quentes e capacidade negocial. Mas a PT é sempre um parceiro de peso. Bem visto.

PASSAR PELAS BRASAS NO CHILL-OUT

Seja como for, quem ganha é o Minho e os felizes participantes da MCP. Felizes é a palavra certa. Com mais ou menos olheiras, nunca vi tanta gente feliz. Além da falta de Coca-Cola a principal queixa que registei foi a da qualidade da comida, este ano abaixo da bitola do ano passado. Não é que fosse má: apenas era inferior. Quando passava pela equipa da Cruz Vermelha via-os a combater o sono, sem nada que fazer. Bom sinal. No ano passado um ataque epiléptico ainda causou transtorno. Este ano, «nem disso houve talvez porque esteve menos calor no recinto», reflecte Ricardo Oliveira, o homem da Eurotux responsável pelo bom estado da rede – mas também um amigo e confidente, um poço de informação graças à sua larga experiência na MCP. Aliás, quando entrámos disse à Catarina que se tivesse algum azar e o pai não estivesse por perto, era só dirigir-se ao Ricardo. Não foi preciso.

Ainda uma palavra sobre o Ricardo e a minha convicção de que as coisas estavam a correr bem: este ano não tivémos as nosas habituais conversas nocturnas, nem lhe punha os olhos em cima depois das duas da manhã. Explicou-me que a parte técnica correu bem. Acredito nas suas palavras, é boa fonte, mas nem precisava responder. Bastava saber que ele ia dormir mais de cinco horas por noite para compreender que não havia problemas.

Os casos mais graves para a Cruz Vermelha foram o de uma colaboradora do “catering” que teve uma quebra de tensão e necessitou tratamento hospitalar e o de um participante que não conseguia mexer as pernas depois de vários dias sem se levantar do seu posto. E não, não era aquele fulano que estava à minha frente e que nunca vi levantar-se, juro. Teria uma aligália, levar-lhe-iam a comida? Ou esteve a soro? Sei que só o via ou a disparar, ou reclinado na cadeira a dormir, aconchegado no saco-cama.

O saco-cama é um objecto conveniente, todavia dispensável, para participar na MCP. O único indispensável é mesmo o computador. No entanto há quem leve mais coisas. Como confortáveis cadeiras de executivo, de couro, largas, com braços, daquelas que até dão para… adivinharam: dormir. Mas dorme-se em qualquer lado. Nas tendas fornecidas pela organização, obviamente. Mas o chão é duro. No segundo dia fui a um supermercado comprar um colchão de campismo. Idade obriga… Há quem durma no “chill-out”, zona que é um misto de descanso, ponto de encontro e local de conferências. Tem habitualmente uns “pufs” altamente confortáveis. Durante a noite é impossível encontrar um deles vazio. Se alguma vez for convidado para uma conferência na MCP, escolha a quarta ou quinta feira: a partir de sexta metade da plateia está a dormir.

Compreendam: não é que as tribos do computadores sejam dorminhocas, longe disso. Em 1500 almas há sempre uns fracos que não aguentam três directas seguidas, só isso. Lá por passar pelas brasas no “chill-out” não nos caem os parentes na lama…

PRÓPRIO PARA RAPARIGAS

Mas afinal o que se passa na Minho Campus Party – está por esta altura o leitor a perguntar. Resposta politicamente correcta: um ajuntamento de “nerds” e “geeks” e “wannabees” e outras tribos da informática, todos ligados em rede e à Internet durante quase cinco dias. A rede é única em Portugal. Tem uma logística diabólica capaz de atrair as multinacionais do sector, como a Cisco, que ali testam produtos e soluções num ambiente real que não se consegue reproduzir em laboratório. (Num laboratório não se colocam 1500 malucos a levar a rede aos limites com truques impensáveis e usos extremos.) Quinze quilómetros de fibra óptica, 25 quilómetros de cabo de rede, um pouco mais de cabos eléctricos e 35 mil euros de prémios. É um acontecimento capaz de colocar Braga, a capital portugues do “software”, no mapa e nos noticiários. Que à quarta edição atingiu a maturidade em termos de organização e não só: as empresas começaram a aderir (e a obter retorno, como foi o caso explícito da Vobis) ao espaço de feira e as apresentações passaram do voluntariado para oradores de peso.

Mas a resposta do coração é outra. Trata-se de uma festa. A maior festa nacional das tribos tecnológicas. A melhor comparação é esta: o que se faz num festival musical de Verão? Basicamente o mesmo que se faz em casa: ouvem-se os grupos favoritos. Com a diferença de se participar num festival com outras pessoas de gosto semelhante. Como num festival musical aqui há vários tipos de pessoas com diferentes objectivos. Uns vão jogar. Outros sacar ficheiros. Outros ainda participar nas competições. Outros, menos, apenas respirar aquele ar. A diversidade é característica base da MCP. O mais novo era o Bruno, cinco anos, emérito jogador de Unreal e uma das principais figuras: não houve jornalista que o não entrevistasse (excepto eu) e fotografasse. A maioria entre os 15 e os 30, estudante, homem. Contudo, esta quarta edição da MCP registou – para agrado de todos! – um súbito aumento da participação feminina, cinco por cento contra o um por cento de 2003. Foram cerca de 80 as mulheres inscritas, em parte porque havia descontos para os clãs com elementos femininos, em parte porque mais jovens se atreveram a convidar as namoradas, em parte porque o ambiente da MCP já ficou definido nas anteriores edições como de “próprio para raparigas”.

O ambiente – eis a magia da MCP. É por ele que se grita tolamente «waazaaaaaap!». É por ele que todos querem voltar na próxima edição. «Até os colaboradores!», confidencia-me Filipe Vale. «Pedem-nos para marcar lugar de um ano para o outro». É por ele que se suspira às 13:00 de domingo, quando a rede é desligada. É por ele que em 2005, seja em Braga, em Vila Real ou até em Lisboa – onde a AIMinho gostava de vir mostrar a eficácia da equipa que tão bem oleada foi ao longo destes quatro anos –, eu e a Catarina voltaremos. Com colchões de campismo, menos roupa e uma caixa suplementar de CDs graváveis.