Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

28 de janeiro de 2008

Wikia: lançado um rival para o Google

A pesquisa no motor Wikia, uma ideia do fundador da Wikipedia, é radicalmente diferente do Google: os resultados provém da edição humana em vez dos algoritmos matemáticos. Mais que resultados, nesta fase debatem-se orientações e ironicamente o Google representa o modelo fechado, contra o modelo aberto, “livre”, da Wikia.

O Wikia abriu portas no dia 7 e avisa muito sensatamente que a qualidade dos resultados das pesquisas é por enquanto fraca e vai manter-se baixa nos primeiros tempos, como é de esperar em projectos em fase de teste.

Há muito que Jimmy Wales, o fundador da Wikipedia, vinha ameaçando com um motor de pesquisa de nova geração. Algo que, como a Wikipedia, seja capaz de extrair o valor do conhecimento humano em rede, em vez de confiar a tarefa à intermediação dos algoritmos matemáticos.

O conceito do Wikia é o mesmo que da Wikipedia: milhões de voluntários de todo o mundo participarão num modelo aberto, contribuindo com o seu quinhão para a produção de mini-artigos sobre cada assunto, sendo esses artigos a base para quem ali efectuar pesquisas tomar como ponto de partida para os assuntos que busque.

Por outro lado, os utilizadores vão poder classificar num sistema de cinco estrelas cada resultado — o que fará subir e descer os artigos nas listas de resultados para cada pesquisa.

Na realidade, o conceito básico é muito simples e até próximo das lógicas dos outros motores de pesquisa. A diferença nos mini-artigos: nenhum dos outros apresenta sugestões elaboradas por pessoas. Mas daí para a frente… A própria Google tem mecanismos para incluir o factor humano nos resultados. Desde logo, através da acção de clicar, que é monitorizada e os seus resultados convertidos numa pontuação para que os algoritmos “percebam” que determinado resultado é “melhor” que outro. Mas a Google tem humanos também a verificar as páginas de destino das pesquisas como forma de aferir da qualidade dos resultados, acção humana esta que permanece invisível — é um dos pontos em que a informação sobre o funcionamento secreto do Google não abunda, suscitando especulações várias. Não se conhece até que ponto vai a intervenção humana nos resultados do Google, nem a extensão da capacidade de intervenção desse exército de “fiscais”.

A questão é: será que o modelo da Wikia poderá constituir uma ameaça ao negócio da Google?

No curto prazo: nem pensar!

A médio prazo, e se o modelo vingar — o que não é certo — é muito provável que acabe por “mexer” no funcionamento da própria Google, que poderá incorporar facilmente o melhor que vier a ser descoberto pela nova aventura do visionário Wales.

No longo prazo, quem sabe? O modelo em que o Google assenta depende muito do poder. Desde logo, do poder sobre o próprio modelo, que tem um graaaande calcanhar de aquiles: os algoritmos são facilmente ludibriáveis por outros algoritmos. É extremamente simples, ao ponto de os bloggers o fazerem com frequência, conquistar posições nos resultados das pesquisas. Já não está ao alcance do cibercidadão comum manipular tais resultados de forma sistemática e bem dirigida, mas não faltam ameças diárias e os engenheiros da Google passam a vida a detectar os ataques à conspurcação dos seus resultados.

Vencem quase sempre — mas por vezes fica visível para os mais experientes que algo não corre bem com os algoritmos. Seja pelas oscilações dementes do PageRank, pelo aumento da quantidade de falsos positivos no Gmail, ou pelas atitudes retaliatórias da empresa face a práticas que só ela considera inadequadas no ciberambiente.

Assim, uma das tentações da Google para preservar a sua qualidade é a de sugerir os “melhores comportamentos” aos milhares de milhões de webmasters e autores. Este exercício de poder é bem visto e bem aceite durante um tempo, mas nada garante à Google que os cibercidadãos se portem sempre como a empresa pretende.

É neste aspecto que considero o modelo aberto da Wikia uma ameaça potencial.

A julgar pelo que sucedeu na indústria da informática com o open source, ou modelo de código aberto, a ameaça é bem concreta e desprezá-la não é acertado.