Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

2 de abril de 2007

Wikipedia: a magna questão do poder

I(Arquivo: versão completa do texto original publicado na revista Actual / Expresso em 30 de Setembro de 2006. Título original alterado.)

A Wikipedia, uma enciclopédia gratuita na Internet e editada por qualquer pessoa, levanta acalorados debates. Todos eles esquecem o essencial: o poder.

Sejamos realistas: a Wikipedia é o sonho de todos os garimpeiros do saber. Desde logo porque se trata de uma enciclopédia totalmente desprovida de interesses comerciais, como os puristas sempre desejaram que as enciclopédias fossem. Nenhuma das pessoas que contribui para a escrita das entradas recebeu um cêntimo, a consulta é gratuita (desde que consideremos “grátis” o uso de um computador ligado à Internet, princípio não totalmente seguro mas que podemos estabelecer para este caso) e o projecto é sustentado através dos donativos dos altruístas de serviço, pessoas e instituições que se encarregam do avanço do conhecimento (e dos 750.000 dólares de orçamento).

Depois porque enquanto depósito de conhecimento não conhece as naturais limitações de bibliotecas (prateleiras finitas) e das enciclopédias de papel (volumes finitos). A finitude do espaço e do papel obriga a uma escolha a vários títulos impura: se estabelecêssemos que toda a erudição do mundo cabia em 10 milhões de artigos ou entradas, o editor de uma enciclopédia teria de cortar mais de 99 por cento para que a respectiva publicação fosse viável. Viável técnica e comercialmente. Por outras – e duras – palavras, alguém ficaria com o discricionário poder de escolher que um por cento dos artigos valeria a pena e de condenar ao esquecimento a quase totalidade da sabedoria humana!…

(Este exercício nada tem de extraordinário e não é uma falácia. Se reparar bem, a única parte que exercita a imaginação é a definição do número total de artigos que comportaria o saber humano. O resto é mais uma descrição, ainda que básica, do processo editorial em que assenta, por exemplo, a Enciclopédia Britânica, a maior e mais prestigiada em todo o mundo, e não só no anglófono.)

Assentando num corpo electrónico composto fundamentalmente por energia eléctrica, compondo a informação sob a forma de conjuntos de zeros e uns, a Wikipedia não conhece as limitações naturais dos átomos. Não tendo suporte em papel, a sua “edição” despreza o próprio conceito de “viabilidade”. Basicamente, onde haja um humano que saiba usar um teclado e possua um tijolo de informação para adicionar ao edifício do conhecimento, o sistema editorial da Wikipedia torna possível a adição – disponibilizando instantaneamente, para o resto da humanidade e para o futuro, o quadro completado pelo novo tijolo.

A noção exacta da irresistibilidade da Wikipedia é dada logo na sua génese. James Wales, o fundador, tinha o projecto de uma enciclopédia online escrita por especialistas, a Nupedia. Mas quando chegou ao fim do primeiro ano com apenas 21 artigos escritos, percebeu que não tinha futuro. Estamos em 2001 e ele ouve falar em wikis. Um wiki é um sistema de edição de páginas na Internet concebido para o trabalho colaborativo, permite a edição por qualquer pessoa e mantém um registo completo, incluindo data, hora e elementos que em casos extremos permitem a identificação do autor, mesmo que este se refugie no anonimato da web. Colou um desses softwares à Nupedia e avisou os editores através da mailing-list, rezando para que a produtividade crescesse à sombra da maior facilidade proporcionada pelo wiki. Rapidamente a “coisa” ultrapassou as expectativas e a razoabilidade: um mês depois o novo sistema continha 600 artigos e ao fim do primeiro ano eram já 20.000!

Hoje, menos de cinco anos volvidos [nota: texto escrito em Setembro de 2006], a Wikipedia contém mais de 4,6 milhões de artigos redigidos em 230 línguas e dialectos – entre línguas vivas, línguas mortas e línguas imaginárias (sim!). Onze das línguas estão acima da barreira dos 100.000 artigos. Em inglês são mais de 1,363 milhões – o que torna a Wikipedia inglesa 18 vezes maior que a Enciclopédia Britânica. O português está no top ten: mais de 177.000 artigos, a esmagadora maioria deles redigidos pelos incansáveis wikipedistas brasileiros, em muito maior número que os portugueses. Se fossem publicados em volumes, os 149.000 artigos em espanhol seriam equivalentes a duas enciclopédias britânicas. Há planos para produzir uma versão em papel da versão alemã, que tem uns meros 459.000 artigos, estimando-se que sejam necessários 100 volumes de 800 páginas cada. Não se percebe é a razão de gastar tanto papel: as pessoas já se habituaram a usar a Wikipedia, que é o sétimo domínio mais procurado no mundo, ombreando com o Google, o Yahoo!, o MSN e o MySpace. [Caiu para o décimo lugar em Abril de 2007; em Portugal é o 13º domínio mais visto.]

Nada espantada com o debitar de estatísticas (a própria Wikipedia tem extrema dificuldade em mantê-las e estão sempre desactualizadas um mês), uma professora do secundário realçou ao EXPRESSO o aspecto que considera realmente impressionante: a quantidade de línguas em que é mantida, levando o saber muito para lá da visão anglocêntrica do conhecimento. Por outras palavras, e descontando aqui o acesso gratuito, a Wikipedia permite a distribuição de saberes por pessoas de muitas culturas, libertando-as da predominância anglófona. Artigos em Esperanto? Anote: http://eo.wikipedia.org. Em basco? Vá a http://eu.wikipedia.org. As minorias que sobrevivem dentro de fronteiras políticas traçadas à força, digamos assim, têm na Wikipedia um aliado poderoso, um agregador das suas culturas. Há outros dialectos minoritários menos sujeitos à geografia, como é o caso do veneziano (http://vec.wikipedia.org), que é falado sobretudo naquela região de Itália mas também no Brasil e no México. Tem, pasme-se, 3.624 artigos. Se não considera isto bizarro, o que dirá dos 633 artigos em sânscrito à sua espera? Quer mais estranho ainda, digamos… alienígena? No problem, pal: a Wikipedia reserva-lhe 62 artigos em Klingon, o dialecto do universo ficcionado da série televisiva Star Trek…

Mas deixemos as curiosidades. Este extraordinário sistema de acervo do conhecimento humano, que permitiu coligir cem vezes mais artigos do que os mais completos sistemas que o antecederam, e num período de tempo sem rival, este sonho tornado realidade tem estado debaixo de fogo. As duas principais questões dos críticos prendem-se primeiro com a exactidão possível num sistema editorial democratizado, e depois com o vandalismo que necessariamente afecta um sistema aberto a toda e qualquer pessoa (e mesmo não-humanos, nomeadamente aos robots informáticos). Supõe-se, portanto, que um artigo escrito por um aluno do ensino secundário é obrigatoriamente mau, decorrendo que se tiver sido escrito pelo seu professor ainda é mau, embora um pouco melhor, e por aí acima na cadeia hierárquica do conhecimento. Ainda por cima, outro aluno – ou até um analfabeto que sabe usar um computador – pode editar e alterar o artigo, bastando a mudança de um dígito numa data para o tornar inexacto.

Vamos por partes.

Esta teoria nunca foi efectivamente provada porque nunca antes houve forma de o provar, mas os seus defensores dão-na por verdadeira (claro). Diz ela que o sistema de peer-review, a validação pelos pares em que se baseia a academia e por arrasto a edição de obras como as enciclopédias, dá garantias de uma maior precisão, um grau de perfeição maior, do que um sistema de edição democrático, aberto a toda e qualquer pessoa [nota actual: experiências acamécias demonstram que sistemas de deliberação, entre os quais se conta o peer-review, produzem resultados iguais, e muitas vezes piores, que simples amostragens estatisticas; dependendo do assunto, podem produzir output de melhor qualidade ou de pior qualidade. Voltarei ao tema em breve] . Ora, a menos que não se considerem também pessoas os membros da academia, estes possuem a mesma capacidade editorial dos demais (embora, expectavelmente, maior responsabilidade), pelo que o sistema democrático encerra em si mesmo essa “capacidade de validação”.

Por outro lado, as realidades editoriais da enciclopédia online e em papel não andam assim tão longe uma da outra: primeiro, os caça-factos vasculham e mondam, preparando cada artigo para a redacção por um especialista ou conjunto deles, sendo depois submetido a uma ou várias aprovações, laterais e superiores, cabendo a responsabilidade final a um macro-editor cujo trabalho não é validar artigos mas sim validar pessoas. Exceptuando esta última figura, um artigo na Wikipedia segue um modelo em tudo idêntico: um utilizador comum abre uma entrada sobre um novo assunto, um wikipedista é avisado e vai ler e retocar, outro wikipedista com mais responsabilidades verifica a correcção geral – tudo de forma transparente, o que é um alívio para muitos.

A grande diferença é esta: no mundo dos bits qualquer erro, não importa em que nível de edição tenha sido cometido, é corrigido no minuto seguinte a ser detectado, enquanto no mundo dos átomos pode demorar uns anos até a “verdade” ser reposta…

Outra diferença: um defeito ou erro que passe os crivos tem nos dois sistemas a mesma probabilidade de ser encontrado por um leitor, mas na enciclopédia de papel o leitor – obviamente pessoa informada ou não teria detectado o gato – é tratado como um cliente cujos direitos acabaram no momento em que comprou os volumes, enquanto na enciclopédia de bits prime o botão “edit” e corrige ele próprio a gralha ou erro. Ele é um nó activo da acumulação de sabedoria.

Se fosse preciso apresentar um argumento, a recente reclassificação do sistema solar era o exemplo perfeito da vantagem da Wikipedia sobre qualquer enciclopédia do mundo dos átomos. No mesmo dia em que os astrónomos votaram, os diversos artigos “tocados” pelo realinhamento planetário já reflectiam a nova verdade oficial enquanto durante semanas a mais lesta das versões da Britânica (a online) continuará a afirmar que o sistema solar tem nove planetas e a sua “irmã” de papel permanecerá enganada vários anos.

Assim, o professor que mande o aluno fazer um trabalho sobre o sistema solar deverá recomendar a fonte “segura” e validada segundo as regras académicas, ou procurar uma fonte realista que apresente não apenas os factos verdadeiros mas também a explicação da recente mudança? (E se optar pela primeira, terá de ter muita criatividade para justificar tal escolha na aula perante uma assembleia de cépticos que sabem a verdade, desconfiam do sistema de ensino e usam o Google como auxiliar de memória e bloco-notas…)

«Essas críticas à Wikipedia são injustas», referiu uma investigadora da Universidade do Algarve. «Há muito tempo que me habituei a usá-la e tenho tirado grande partido. Naturalmente, como em tudo o que leio na rede, afiro da qualidade dos artigos através das citações e da origem e qualidade delas». Ou seja, o processo de validação pelos pares pode continuar a ser (e é) feito – provavelmente até com vantagens acrescidas. Os pares é que mudam, como veremos adiante.

Outra professora universitária também utilizadora, embora com reservas, da Wikipedia salienta-nos outro aspecto ao qual atribui uma «vantagem inigualável: o hipertexto». Enquanto uma entrada de enciclopédia é quase sempre um ponto de chegada, um dead end do qual dificilmente se sairá (as referências externas não abundam e, a menos que se estude na biblioteca, como ter acesso a alguma delas?), um texto na Wikipedia «é geralmente um ponto de partida». Isto é válido especialmente para os assuntos mais antigos, onde a Wikipedia poderá “perder” para as enciclopédias com mais tempo de maturação, a bibliografia costuma ser abundante. Só se fica por ali quem não precisar de mais ou melhor.

Há pouco menos de dois anos Robert McHenry, um antigo chefe de redacção da Enciclopédia Britânica, fechava uma crítica intitulada “The Faith-Based Encyclopedia” (a enciclopédia baseada na fé) da seguinte forma: «O utilizador que visite a Wikipedia para aprender sobre determinado assunto ou confirmar algum facto vê-se na posição do visitante de um urinol público. Pode estar obviamente sujo, caso em que saberá que deverá ter grandes cuidados, ou pode parecer relativamente limpo, transmitindo uma falsa noção de segurança. O que não sabe com toda a certeza é quem usou as instalações antes dele» (www.tcsdaily.com/article.aspx?id=111504A).

É um facto indesmentível. Mas infelizmente não nos esclarece sobre o essencial: um porteiro de libré à porta de um urinol representa só por si uma garantia de limpeza? Não é apenas outra questão de fé?

Ninguém lembrou a McHenry que fiscalizamos melhor os nossos urinóis através de entidades independentes encarregues dessa ingrata missão do que as nossas principais enciclopédias. Também lhe podem perguntar quanto tempo teremos de esperar pela definição “rigorosa” da Britânica para termos como “blog” e “podcast”, ou explicações “científicas” acerca de RSS, RFID ou P2P – para citar expressões que milhões de pessoas precisam urgentemente, quando não desesperadamente, entender. Num mundo em que o ritmo de inovação tecnológica, mas também social e económica, é vertiginoso, um instrumento de acumulação de saber com as características da Wikipedia é valiosíssimo, enquanto os instrumentos clássicos do saber enciclopédico falham estrepitosamente.

Em Dezembro de 2005, no auge da revolta do establishment da sabedoria contra os pés sujos democráticos, a revista científica inglesa Nature publicou os resultados de um teste sobre a exactidão da Wikipedia. Foram escolhidos ao acaso artigos em tópicos científicos e comparados com os seus correspondentes na Britânica. A diferença não era especialmente nítida. Em média, uma entrada científica na Wikipedia continha quatro inexactidões contra três na Britânica. Naturalmente, a empresa que edita a Encyclopedia Britannica reagiu com compreensível veemência.

Jimmy Wales, o fundador da Wikipedia que não se cansa de dizer que toda esta gritaria é um disparate porque se comparam maçãs com laranjas, vai aproveitando as ocasiões como pode. Este Verão houve um pequeno escândalo na Alemanha: uma resposta da versão local do concurso televisivo quem quer ser milionário estava errada. Tinha sido retirada da Britânica. «Também estava errada na Wikipedia», referiu Wales, «mas pudemos emendar o erro imediatamente».

Quanto mais violentas, melhor: as críticas à Wikipedia tiveram repercussão óbvia e imediata. Hoje a qualidade geral aumentou, os artigos possuem mais auto-crítica (“falta aqui uma citação”, “este número precisa ser comprovado” são frases comuns em entradas de elaboração recente ou antigas mas revistas) e a elite dos wikipedistas debate que medidas devem ser introduzidas para aperfeiçoar o sistema.

Consta que a discussão não terá fim. Pelo menos enquanto se venderem enciclopédias.

Mas a discussão tem falhado um ponto chave. Do ponto de vista do consumidor avisado, do meu ponto de vista, e suspeito que do ponto de vista da erudição se ela tivesse um, a discussão é irrelevante. O sistema peer review tinha mais a ver com a exiguidade das folhas em que o conhecimento seria apresentado, e menos a ver com a garantia de “qualidade” de cada artigo; o objectivo de contratar especialistas era prestigiar uma enciclopédia face à sua concorrência. Esse sistema é adequado a uma economia de escassez de meios mas totalmente disparatado numa economia de abundância; esta ocorre a partir do momento em que o “número de páginas” ganha aspas (isto é, o conceito deixa de ser aplicável ao real), e não apenas o espaço editorial é ilimitado como os destinatários do saber são simultaneamente os processadores desse mesmo saber em mutação. Como tal, são eles próprios competentes em matéria de validação, por conhecimento directo ou por interposta pessoa que, numa nota de rodapé ou um artigo exterior devidamente anotado, em hipertexto, não apenas analisou, classificou e comentou o dito artigo, como forneceu explicação alternativa e espaço para o contraditório, levando a experiência da aquisição do conhecimento onde nunca ela pudera ir. Na Wikipedia nada impede o peer review, pelo contrário. Faltará somente algum amadurecimento e adaptação às mutações em curso no processo de produção de conhecimento e sua transformação em saber.

Exceptuando o contributo de alguns críticos preocupados com aspectos técnicos ou filosóficos, a grande maioria dos anti-Wikipedia usa argumentos que pouco ou nada têm a ver com as enciclopédicas necessidades das sociedades actuais, preocupando-se exclusivamente com os aspectos da “posse” e da “validação”. Numa sentença: é o poder que os move e não a erudição ou a defesa do direito a ela. O poder de quem decide o que é e o que não é verdade. O poder de quem decide o que é relevante, e deve ser publicado, do que é acessório e não merece publicação (outra estupidez: hoje tudo merece publicação, ou na pior das hipóteses é publicado ainda que não mereça). O poder de quem decide o ângulo de abordagem de uma matéria, quando não é possível omiti-la.

Quem tinha o poder de riscar do mapa 99 por cento do saber humano, na nossa supracitada teorização sobre o negócio do conhecimento numa economia de escassez de meios de divulgação, não quer perdê-lo quando a humanidade passa para uma sociedade de abundância de conhecimento e respectivos meios de distribuição.

Por sua vez, quem já percebeu a inevitabilidade da mudança – talvez por ter experimentado a irresistibilidade do saber mutante – exerce pressão para tentar garantir as brechas no sistema por onde poderá influenciar a perspectiva da realidade. Nem que seja limpando as mãos à parede, como Robert McHenry. O problema é que em situações de abundância o poder tende à irrelevância. Definitivamente, esse é o problema.

Leituras imprescindíveis

* The sum of knowledge? Ian Delaney, jornalista londrino, em twopointouch.com/2006/07/30/the-sum-of-knowledge/

* Can Wikipedia conquer expertise? Stacy Schiff em The New Yorker, www.newyorker.com/fact/content/articles/060731fa_fact

* Get Wiki With It, Peer review – the unsung hero and convenient villain of science – gets an online makeover. Adam Rogers na Wired, www.wired.com/wired/archive/14.09/start.html?pg=3