Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

13 de outubro de 2010

Almada: a cidade que insiste em odiar as pessoas e os automóveis e a si própria

Viver em Almada tornou-se uma interrogação. Durante décadas não houve regras de desenvolvimento. Ou por outra: os problemas de crescimento eram tantos que a energia e a capacidade política inesgotável atribuída pelas super-maiorias ao executivo autárquico foram gastas no ordenamento possível.

Concelho semi-arrumado, e coincidindo com o reforço das competências locais sentido em todo o país, vieram as linas de desenvolvimento.

Mais valia terem ficado quietos — é o que se constata hoje.

Precisamente hoje, o dia em que o noticiário fica marcado pelas contas da rede do eléctrico com nome de metro: Metro Sul do Tejo em risco de parar de funcionar por falta de dinheiro.

No início, e enquanto a obra esteve no papel, até admiti que a aposta num transporte coletivo movido a energia elétrica fazia algum sentido à luz do que sabemos sobre o fim do riquíssimo ciclo do petróleo. Enquanto as obras decorreram achei os protestos normais para uma cidade em obras. Isto incluindo os meus próprios protestos. O sentido do trânsito nas principais artérias a mudar várias vezes, a lama e o pó que enfureceram os comerciantes do centro e contribuíram para a desertificação da Avenida, com as pessoas mais antigas (não havia lá outras) a fugirem do barulho e da confusão, a consagração da hora de ponta, até então desconhecida na cidade… Tudo isso se ia passando com uma dúvida: talvez fossemos para melhor.

Hoje temo bem que não. Almada é uma cidade que na generalidade desagrada aos peões. Talvez o centro — dois quarteirões em torno da Praça São João Batista — tenha melhorado de condição, mas no resto as dificuldades aumentaram e a dureza ambiente e a sujidade desaconselham andar a pé.

Pelos vistos, as pessoas não preferiram o elétrico. A questão nem é a falta de dinheiro, que em parte resulta das indemnizações compensatórias que o Estado atrasa. É mesmo a falta de utentes. Metade dos estimados.

Bem sei que alguns tiram partido: nomeadamente os estudantes e as pessoas do eixo suburbano ao longo da Estrada Nacional 10, hoje uma rua repleta de rotundas e rasgada pelos carris do elétrico.

Mas eu tenho o mau hábito de esperar que o ordenamento territorial se destine a melhorar a qualidade de vida em geral e não a de algumas minorias. O contrário, que é o que vejo acontecer em Almada, parece-me uma subversão da lógica.

Se a vida dos peões não registou ganhos, a dos automobilistas registou prejuízos de monta. Os elétricos rasgaram as principais artérias da cidade ao meio. Literalmente e, no caso da Avenida Bento Gonçalves, várias vezes, feridas repetidas. Os que pensavam que sair de Almada entre as 7:30 e as 9:30 da manhã era complicado, hoje suspiram por esses tempos em que demoravam 5 minutos a chegar à fila da Ponte, perdendo depois 25 minutos até à margem Norte. A fila para sair de Almada chega ao centro da cidade e a demora até chegar à auto-estrada atinge os 20 minutos — quando tudo corre bem.

Hoje demora-se MAIS TEMPO A SAIR de Almada do que a entrar em Lisboa.

A Avenida tinha 4 faixas, ficou reduzida a 2, 1 para cada sentido. Mas como o elétrico, que passa ao meio, as interrompe duas vezes, os semáforos provocam atrasos de tempo consideráveis.

E o problema alastrou. Da hora de ponta matinal estendeu-se ao dia inteiro. Sair de Almada às 3 da tarde, ou às 11:30 da manhã, implica o mesmo ritual antes desconhecido: MAIS TEMPO para chegar à auto-estrada do que para entrar em Lisboa.

Alastrou também à ENTRADA em Almada. Seja a que horas for, mas com agravante entre as 17:00 e as 19:00, entrar em Almada significa hoje um pedágio em tempo, nunca inferior a 5 minutos.

Ah, se fosse só a circulação!… Mas não. O automobilista almadense é hoje castigado também no estacionamento. As melhorias nos arruamentos pareciam uma benção a quem comia pó e pisava lama, conforme a época do ano, em tantas das ruas principais. Até chegar o “ordenamento” pela via do estacionamento pago. O caos.

A situação é, hoje, caricata. Risível. Na minha redondeza há dezenas de lugares “ordenados” livres e os automóveis amontoam-se nos passeios e buracos onde a mão do parquímetro não chega. Mas ai do cidadão que, não possuindo um dístico passado pela Junta (que é fácil de obter, mas uma grande parte das pessoas que aqui habitam não preenche os requesitos), largue o carro por um par de horas num desses lugares livres: a fúria da empresa municipal encarregue de explorar (termo mais justo não há) os lugares de parquímetro garante-lhe um dia infeliz.

Isto sem falar da liberdade dos fiscais, que dispõem de instruções para infernizar o automobilista que estacione num passeio na zona paga.

Tudo isto faz de Almada um sítio nada aprazível para uma pessoa circular. A cidade, que tinha uma impressionante vida própria, entristece-se enquanto percorre o caminho que lhe foi traçado: acentuar o carácter de dormitório sub-urbano contra o qual tantos e tantos anos resistiu.