Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

21 de junho de 2008

Balanço de Portugal no Euro: a esperança como medida para as coisas

Portugal saiu do Euro 08 derrotado pela Alemanha nos quartos de final e há quem use o facto para pedir a cabeça de Gilberto Madaíl.

A alegada base das reclamações é apenas e só a esperança. A esperança que a equipa fosse mais longe. Como não foi, consideram que o presidente da FPF deve ser afastado. Porque falhou a entrega da esperança de alguns?

Não acho grande ideia usar a esperança — que é por natureza uma medida individual e uma variável emocional — como medida para avaliar prestações de representações nacionais.

Objectivamente, a selecção de futebol de Portugal que competiu no campeonato da Europa da modalidade é uma selecção de menor valor, seja a comparação feita com as suas antecessoras mais próximas, seja — como é mais lógico fazer — no confronto directo com as actuais selecções rivais.

Começa logo no valor individual dos seus jogadores. Os contratos e transferências milionárias enganam, no sentido em que nos dão uma dimensão unilateral do valor dos indivíduos.

Unilateral na expressão — o valor financeiro de um jogador já deixou de ter uma obrigatória relação directa com o seu valor desportivo. O título de “melhor do mundo” tem mais de mediático que de desportivo. E não tenho apenas Cristiano Ronaldo na mira: os outros 2 Ronaldos e David Beckham são provas do mesmo (e Zidane e Figo também, mas ao contrário: valeram mais desportivamente do que valeram financeiramente; têm um capítulo, cada um, na história do futebol, Ronaldo tem dois parágrafos, Ronaldinho Gaúcho um período e Cristiano ainda só tem uma linha).

Unilateral na perspectiva: cegos pelos milhões, não os relativizamos num contexto europeu onde transferências daqueles montantes são comuns. Isto é: há muitos mais jogadores do valor financeiro (sem meter aqui o valor desportivo) igual e superior a Ricardo, Bosingwa, Miguel, Ricardo Carvalho.

O seleccionador nacional conseguiu mascarar a transição entre duas gerações algo desiguais graças ao seu talento mediático e ao recurso à naturalização de dois homens nascidos no Brasil. A transição fez-se da geração de Riade para a actual com os analgésicos de Scolari e a dor veio agora, finalmente. Os de Riade possuiam — individual e colectivamente — níveis técnicos e psíquicos que estão um pouco acima dos dotes da plêiade de bons jogadores que o país produziu esta década.

Frente à Alemanha, Portugal jogou um jogo fabuloso — e o adjectivo aqui é menos emocional do que factual: as estatísticas do jogo dizem isto mesmo, seja a posse de bola, número de remates, distribuição cronológica dos lances ofensivos, em todos os índices a prestação portuguesa foi acima da média, foi superior ao adversário. Cometendo dois erros fatais, que aniquilam qualquer um, a equipa ainda alcançou a proeza de resistir psiquicamente até ao final e fez o que lhe competia: procurar anular a desvantagem.

Numa análise já com uma pitada de subjectivo, a equipa conseguiu 2 ou 3 lances de futebol inteligente num período de jogo — muito perto do final, em desvantagem no marcador — em que só os heróis de muitas batalhas alcançam a frieza necessária para não chutar a eito e resolver pelo chuveirinho de bolas para a área.

Se aquele não foi um grande jogo de futebol, então eu nunca vi um grande jogo de futebol.

Também aqui a esperança é má conselheira. Como a esperança era de que a equipa ganhasse, independentemente da qualidade dos lances, da prestação dos executantes, da interpretação do ambiente, do valor do adversário, os esperançados não estavam realmente preocupados com o futebol.

Perder nos quartos de final significa estar entre as 8 melhores equipas da Europa. Tudo somado, o lugar deste Portugal está certo.

Não vejo como pedir a cabeça seja de quem for.

Uma palavra para o seleccionador: boa sorte no Chelsea. Não tenho nenhuma razão de queixa de Luis Filipe Scolari nem vejo onde o país possa tê-la. Também detestei o timing do anúncio da saída, mas não é matéria para queixa.

A saída vem no tempo certo. Scolari podia ter saído no final do Mundial — o momento simbólico do fim da geração de Riade. Quis iniciar a transição e penso que é caso para lhe agradecer: duvido que outro seleccionador tivesse condições para o fazer tão bem.

Com ele, a selecção cresceu inequivocamente. Na dimensão psíquica, sobretudo. Essa é a lição do último jogo com a Alemanha: não foi uma equipa de coitadinhos que perdeu, foi uma equipa de grande nível, do nível suficiente para não claudicar e procurar sempre rectificar os 2 erros qude cometeu, o género de erros de que nenhuma equipa está livre. A Alemanha ganhou com uma estratégia de apostar tudo nos erros do adversário — e isto é um grande elogio à equipa portuguesa e a confirmação daquilo que estou a dizer. É uma boa selecção, de grande nível, sólida, está entre as 8 melhores da Europa, mas não é uma selecção extraordinária, como a sua antecessora directa.

A esperança é bonita, as bandeiras nas janelas e as pinturas de rosto são bonitas — mas as cabeças rolam ou não em função de dados objectivos. Ou então é tudo uma palhaçada.