Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

14 de maio de 2008

Contributo para a História da Web em Portugal: o episódio Carrilho

A primeira vez que ousei sair do meu papel de repórter e publicar um texto assinado como opinião foi ainda no Diário Popular, algures em 1988. A segunda vez ocorreria dez anos depois, no Expresso. Recordo-me que quase pedi licença, sob a forma de um olhar avaliador da prosa antes de a assumir no jornal, ao Henrique Monteiro, então sub-director. Isto numa das apertadas esquinas dos corredores da Duque de Palmela, no segundo andar onde eu tinha banca.

O Henrique fez-me a vontade e leu com o seu olhar treinado para a política, um território onde eu pouco pisara.

O artigo saiu, meia página no (ainda caderno) Vidas com a cabeça “opinião”.

Nunca esquecerei o duplo atrevimento: escrever uma prosa de opinião — eu, com uma carreira impoluta como repórter que só assinava textos porque me era exigido (os tempos mudaram muito nesse aspecto) e evitava zelosamente dizer o que pensava — e logo a pedir a demissão de um ministro.

Na semana seguinte fiz a minha segunda aparição em televisão sem ser para falar de golos, futebol e árbitros (a primeira fora umas semanas antes, para responder sobre “o que a Internet ia mudar nos nossos cérebros” sic, a questão que fascinava o Paulo Jorge Dentinho, meu grande amigo, hoje em Paris). O tema, o mesmo: a demissão do Ministro da Cultura, à época António Maria Carrilho, por causa de uma argolada com a Internet. Em concreto, o Terràvista — um serviço lançado pelo seu Ministério que albergava à época umas valentes dezenas de milhar de “páginas pessoais”, umas coisas rudimentares que os entusiastas iam produzindo em HTML e actualizando através de técnicas “esotéricas” como o FTP, e que hoje se querem confundir com blogues.

Do “heroísmo” da defesa da cibercidadania — parvos, ainda fizemos a EFF portuguesa, como se os portugueses quisessem realmente ter quem os defendesse — curei-me muito depressa.

Não posso dizer o mesmo acerca de virar as costas à História e engolir todos os desaforos e insultos que a minha condição de figura com alguma visibilidade nos jornais (não confundir com figura mediática e muito menos com fazedor de opinião) passou a proporcionar-me a partir dessa altura. Não me curei disso e colou-se-me a etiqueta de polémico, que só não enjeito por não achar desconsiderante, mas que francamente não me classifica. Durante um tempo ainda quiseram colar-me a etiqueta de inculto tecnológico — essa sim, por mim plenamente aceite — mas o cuspo dos artolas que o fizeram era ainda mais fraco do que as minhas liliputeanas competências em bits e bytes, pelo que a etiqueta depressa caiu.

Deixo de lado a imodéstia das memórias pessoais. Segue-se a reprodução desse texto histórico. Lembro-me que o revi com a exclusiva preocupação da carga das palavras, os desks reveriam os erros (havia desks! um luxo!)

De então para cá, a web mudou de dimensão: aumentou o número de Pequenos e Médios Artistas que a habitam. A diferença qualitativa deve-se não à acção das pessoas, que continuam a recusar alegre e anarquicamente qualquer tentativa de associativismo para a defesa dos seus interesses colectivos (?), mas à questão tecnológica. Embora o poder político continue doentiamente surdo (ver P2 esta semana), a voz da sociedade passou progressivamente para a rede, que ajudou a quebrar o paradigma das grandes superfícies mediáticas.

Opinião

Outros ministros já se demitiram por menos

AO CONTRÁRIO do que fizeram algumas centenas de concidadãos do ciberespaço lusófono (e, antes deles, outras vozes da nossa comunidade de Pequenos e Médios Artistas indignados por razão idêntica) não vou pedir que a cabeça do ministro da Cultura role na praça pública. Mas que já outros ministros se demitiram por menos do que fez Manuel Carrilho, não tenho a menor dúvida.

O último demissionário, por exemplo.

António Vitorino não lesou os contribuintes. Não «roubou» o tecto digital a 25 mil só porque um deles tinha telhados de vidro, através dos quais exibia um conteúdo eventualmente chocante. Vitorino soube portar-se à altura dos «media» que lhe descobriram a careca – mas Carrilho enervou-se com uma típica notícia de tablóide em tempo de férias a ponto de cometer um erro político grave.

Vitorino não comprometeu a face dos seus pares de Governo – enquanto Carrilho deixou o Ministério de Mariano Gago num prudente e significativo silêncio perante o encerramento intempestivo, precipitado e cujas verdadeiras razões continuam por assumir, de um serviço público que muito contribuía para a imagem favorável de que o Governo gozava junto da cibercomunidade.

A Missão para a Sociedade da Informação, o projecto Internet nas Escolas e outras iniciativas ajudaram a fazer crescer, orgulhosa, uma comunidade lusófona inserida numa teia mundial dominada pela cultura anglo-saxónica. Contribuindo ainda para diminuir as distâncias entre as culturas lusófonas do Brasil e dos PALOP, que usavam o Terràvista como ponto de encontro.

Tudo isto foi traído por uma irada ordem de um ministro da Cultura (sublinho: da Cultura) farto de ouvir tablóides falarem em pornografia – diga-se de passagem, menos acessível na rede que pela TV Cabo e visível nalguns filmes e peças de teatro a que o seu ministério tem servido de mecenas. Um ministro que não ouviu os seus colaboradores – entre eles os responsáveis pelo sucesso que dá pelo nome de Terràvista e que podiam ter evitado o desastre com um oportuno conselho.

Não admira que a comunidade que agora se manifesta se sinta traída. O que todos sabíamos, mas não importava, tornou-se subitamente crucial: o ministro da Cultura não liga à Internet, portanto não podia avaliar o alcance da medida que ia tomar.

Chama-se a isto governar no escuro. Problema de Carrilho.

Quanto ao problema da cibercomunidade, advém da sua principal característica: é saudavelmente anárquica e desorganizada. Reage mal às tentativas de gritar em coro. Mas essa é a única forma de ser ouvida pelo Poder, que por regra só ouve a berraria amplificada pelos «media».

Já se percebeu que temos uma forte cibercomunidade. Vamos ver se ela consegue, em defesa do seu espaço fundamental, por uma vez deixar os grupos de discussão com a sua lógica de intervenção individual e chegar às grandes superfícies mediáticas, os jornais, a rádio e, sobretudo, a televisão.