Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

23 de maio de 2010

De onde surgiu o meu interesse pelo jornalismo?

Fica aqui, para efeito de arquivo, uma entrevista comigo, feita por José Miguel Fernandes e publicada em Abril no blog Cultura Activa.

1- De onde surgiu o seu interesse pelo jornalismo? E pelas novas tecnologias?

Eu não tinha propriamente um interesse específico no jornalismo. Surgiu-me como uma hipótese de trabalho preferencial, uma vez que tinha a ver com escrita. Eu treinava muito a escrita, quando adolescente. Trabalhei pela primeira vez num jornal em 1978. Era “A Nação” e, entre outros, conheci lá o Carlos Pinto Coelho e o José Eduardo Moniz. Mas eu era então estafeta — pau para toda a obra dentro de uma redacção. Publiquei aí os meus 2 primeiros artigos pela mão do editor de Cultura, que era o João Alves da Costa (jornalista muito tempo ligado a A Bola). Mas só fui jornalista-estagiário dois anos depois, na Gazeta dos Desportos.

Já com as novas tecnologias foi diferente. Comecei por ter aversão, ainda jovem, mas um anúncio no extinto Se7e — Sinclair, o poder do computador ao seu alcance — intrigou-me. Comprei um Spectrum e percebi de imediato o poder que a informática iria ter sobre a informação, a minha área. Nunca mais parei de aprofundar conhecimentos.

2- Exerceu durante muitos anos a profissão de jornalista, sendo actualmente consultor. De todo o seu percurso profissional, que momento destaca como o que lhe deu maior satisfação pessoal?

Não consigo isolar um, mas cinco. E não conto os prémios, que são sempre momentos de satisfação.

Na Gazeta dos Desportos, como em todos os jornais, fazíamos as classificações do futebol à mão, com uma calculadora perto. Eu e um amigo escrevemos um programa em BASIC que reduziu essa tarefa de 3 a 4 horas para menos de 30 minutos. Isto passou-se no início da década de 80.

Ainda no Diário Popular, uma reportagem minha que foi manchete, sobre um miúdo baleado enquanto brincava, levou o então Primeiro Ministro Cavaco Silva a chamar-nos aos dois — a mim e ao miúdo — a São Bento. Cavaco Silva interessou-se pela história e quis ajudar o miúdo de alguma forma. Eu fui por arrasto, claro. A satisfação esteve em ver a cara de feliz do rapaz quando recebeu a prenda do PM.

Já no Expresso, fiz uma entrevista a um velejador português em pleno Oceano Pacífico — João Cabeçadas — usando a CompuServe, uma das redes comerciais que então proporcionavam alguns serviços em cima da Internet. Um colega — o Norberto Santos, então da Lusa e nosso colaborador — ficou fascinado com a CompuServe porque permitia acesso aos jogos e classificações da NBA, que ele cobria para o Expresso; habitualmente só tinha informação 2 dias depois, e de forma irregular — dependia do tráfego que circulasse entre agências, quando a linha era ocupada por muito noticiário a NBA ficava para trás. Nesse tempo as linhas por onde circulavam as notícias eram poucas e muito limitadas. O Norberto e eu fizemos um brilharete e o Expresso passou a dar regulamente e sem problemas os resultados da NBA. E depressa passámos a recolher mais informação desportiva por ali.

Outro momento alto no Expresso: introduzi no jornal a infografia feita por computador. Fomos precursores no caderno de Desporto. Chegámos a ter capas com infografias produzidas exclusivamente em computador (usava o CorelDRAW! sobretudo). Não continuei porque o meu interesse era apenas o de abrir as portas para a inovação; o Expresso contrataria mais tarde infografistas, além de ter formado alguns.

E o quinto momento alto: quando, no Público, há cerca de um ano, o António Granado e o José Manuel Fernandes aceitaram a minha proposta para um dossiê total sobre as eleições. O dossiê tinha tudo, desde os resultados das sondagens até à avaliação das citações dos candidatos, com os resultados em gráficos, até à recolha das notícias sobre as eleições, produzidas quer pelo Público quer pelos outros jornais (até hoje nenhum jornal português teve coragem de fazer sistematicamente links para o noticiário dos concorrentes), até à recolha dos blogues e das redes sociais.

3- Como vê a situação actual do jornalismo em Portugal? Quais são as principais diferenças desde que iniciou a sua actividade profissional?

O jornalismo atravessa um momento de desorientação em Portugal, como de resto em praticamente todo o mundo. Essa desorientação prende-se com a economia da actividade, em primeiro lugar, mas também com o propósito da profissão, que tem de acompanhar a situação das novas “audiências”.

Noto 3 grandes diferenças para o meu tempo.

1: os jornalistas são hoje em geral melhor formados em termos académicos.

2: O acesso à profissão está mais difícil: é preciso cumprir períodos de estágio não remunerado longos.

3: a investigação é hoje mais difícil de efectuar, sendo que se pede ao jornalista um ritmo de produção que não se compagina com aprofundar as diligências inerentes à investigação.

4- Como define a actual situação cultural de Portugal? O que faria para impulsionar a cultura?

Defino-a como adequada, ou talvez até sobre-dimensionada para o país que somos, com um excesso de oferta. Só públicos sensibilizados se tornam em consumidores culturais, pelo que eu, sendo poder, investiria na educação, formação e sensibilização desde o jardim de infância. Mas admito que a minha seja uma perspectiva demasiado banal do assunto, que não é propriamente dos que mais me interessam.

5- Se pudesse escolher uma pessoa para governar Portugal, quem seria?

José Sócrates. Ainda.

6- Fale-nos um pouco dos seus gostos culturais, nomeadamente no cinema, literatura, música, etc

Sou um tanto eclético. No cinema é verdade que já passei a fase intelectual e hoje prefiro as produções comerciais. Aprecio os actores e realizadores americanos e sigo algumas carreiras. Da literatura estou um pouco distante agora. Leio sobretudo livros de não-literatura: investigação, pesquisa, tecnologia. O mais perto da literatura que ando é quando leio alguma biografia. O romance nunca foi o meu forte — exceto a ficção científica, que devorei em larga escala até há uns anos atrás. Na música o meu ecletismo chega a ser doloroso :) Gosto de rock, hard-rock e rock sinfónico dos anos 70-80, mastigo alguma pop, tendo a ouvir mais música clássica ultimamente (já venho tarde para um sistematização de autores, vou apreciando) — mas fã, a música a que chamo minha, é o jazz, são os blues, e é a pop electrónica.

7- Que área cultural destaca em Portugal?

A principal área cultural em Portugal é a cultura popular, que se desenvolve fora dos principais eixos comunicacionais em que giram as elites, que a consideram muito justamente desagradável. Contudo, ela é a mais pujante actividade, sendo tão forte que já cativou recursos antes dedicados às áreas para elites e burguesias, como a televisão.

A cultura popular não fornecerá obra de relevo, claro. Mas ao menos alicercou uma actividade industrial que fomenta algum emprego cultural. E as áreas elitistas, por alguma razão que desconheço, também não têm produzido nada que jeito tenha. As nossas elites científicas são mais produtivas.

8- A nível jornalístico, quais as grandes diferenças para si entre Portugal e o resto da Europa(França, Alemanha, Reino Unido, Itália). Portugal fica atrás do resto dos países?

Penso que falta a Portugal a massa crítica capaz de justificar a manutenção de um jornalismo de qualidade ao nível da Alemanha e do Reino Unido. Estou demasiado distante do dia a dia dos outros países para me atrever a uma opinião, por simples que seja.

9- Muito do seu trabalho foi desenvolvido à volta da internet. Como vê actual a importância da internet? E para o futuro, onde podemos chegar a nível de comunicação?

A importância da Internet é mensurável de 2 formas. Pelo destaque que obtém na sociedade, visto através do peso nos media: neste aspecto, tenderá a diminuir de importância à medida que se vulgariza. Quanto à importância que tem para as nossas vidas, tem vindo a aumentar e vai continuar. A diferença é que dentro de um par de anos deixaremos de falar dela como o temos feito: passará a estar no mesmo patamar que a rede telefónica ou a rede viária.

Para o futuro breve, teremos os objectos ligados: o meu frigorífico ligado à minha conta no supermercado, o meu automóvel ligado

aos circuitos das estradas e do estacionamento. Mais à frente os objectos comunicarão com cada vez maior autonomia.