Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

10 de agosto de 2009

Hasta la vista, Expresso

expresso

No passado dia 31 de Julho fechou-se mais um ciclo profissional. Foi o último dia em que colaborei para o Expresso.

Esta é a segunda vez que o jornal e eu seguimos caminhos diferentes. Da primeira vez, em 1995, despedi-me, cansado da lentidão do jornal e pronto para me lançar nas aventuras de empreendedorismo na área dos novos media. Sair do quadro do Expresso era — e é cada vez mais, suponho — um gesto de coragem, ou de irreflexão. Mas não pensava nada disso: apenas queria ir para o futuro.

Dois anos depois, num sinal de abertura do Expresso, voltei como colaborador, pela mão do Virgílio Azevedo, para uma vez mais ser pioneiro. Tal como em 1989 tinha participado na equipa que lançou o histórico caderno de Desporto do Expresso, em 1997 fui ajudar a erguer o XXI — um caderno dedicado ao futuro, às então novas tecnologias, à Internet, à ciência de forma descomplexada.

É sina minha: em meados da década de 80 fundei o suplemento de informática do Diário Popular, que testemunhou o arranque da micro-informática em Portugal.

Desta vez, a ligação desfaz-se por iniciativa do jornal. Cortes orçamentais.

No Expresso e pelo Expresso vivi a maior fatia da minha vida profissional como jornalista. No Expresso introduzi no jornalismo português o uso da Internet, então através da CompuServe, entrevistando pessoas e recolhendo informação desportiva americana que nessa época demorava dias a chegar cá. No Expresso introduzi a infografia — publiquei ali os primeiros gráficos produzidos em computador, que eram convertidos para offset pois o jornal ainda era todo diagramado à mão e montado pelas vias tradicionais.

No Expresso noticiei a morte do MS-DOS com o advento do Windows 95 — parece óbvio hoje, mas nesse ano, garanto-vos, não o era e valeu-me grandes controvérsias e a ira de um editor.

Pelo Expresso subi e desci a Senhora da Graça e a Serra da Estrela, cobrindo por duas vezes a Volta a Portugal, prova maior de uma modalidade desportiva popular que mal tinha tido espaço no jornal. Pelo Expresso cobri a America’s Cup, sendo assaltado no regresso de San Diego, perdendo os apontamentos, gravações e fotos e tendo de reconstituir tudo de cabeça (a reportagem saiu bem). Ao serviço do Expresso reportei o futebol e a vida como ela era na União Soviética, antes do muro de Berlim cair.

Também no Expresso publiquei erros crassos. Recordo os dois que mais me embaraçaram: a tecnologia “push”, um flop tecnológico cujo conceito, contudo, viria a impôr-se dez anos depois graças ao RSS; e o Newton, o PDA da Apple que celebrei com entusiasmo mas que seguia uma aproximação errada, a do reconhecimento da escrita humana.

Para o Expresso entrevistei, entre outros, Nicholas Negroponte, Derrick de Kerckhove, John Perry Barlow. Mas também cidadãos indonésios aquando da independência de Timor, usando o IRC, a “rede social” da altura que ainda não se chamava assim.

No Expresso reportei o fim da era dot-com e a importância da blogosfera quando ninguém ainda falava dela.

No Expresso fiz capas históricas. Umas noticiosas como a denúncia dos problemas do MBNet no seu lançamento (Economia, 1ª página, sem link directo, fica o envolvente). Outras de investigação, como o nascimento do P2P, às mãos do Napster, que viria a ditar o fim da indústria musical. E outras premonitórias, como a antecipação das redes sociais em “nasceu a inteligência conectiva” (capa arrojada do XXI, link quebrado como todos os dessas primeiras edições online do Expresso) e ainda os projectos de computação distribuída).

Tenho o meu quinhão de desapontamentos — não com a Redacção, onde só tenho amigos, mas com as “estruturas” do grupo, que em regra se mostraram insensíveis às soluções adequadas. Esses, porém, digerem-se em privado, fica apenas a nota de que nem tudo foram lindas rosas nesta relação que pela segunda vez chega ao fim.

Haverá uma terceira vez?

A porta ficou aberta. Só os ventos da vida, soprando em direcções incertas, a poderão fechar, contra a vontade dos homens.

Por último: embora nos últimos anos a ligação fosse já ténue, com base nela ficaram pelo caminho oportunidades de ligações empenhadas a outros títulos de media e a outras entidades do jornalismo e dos novos meios. Assim, desde o dia 31 de Julho, aumentou a minha disponibilidade para projectos e iniciativas no campo dos new media.