Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

16 de novembro de 2020

O destino do jornalismo tornou-se-me indiferente

Photo by Dimitri Houtteman on Unsplash

Uma vez jornalista, sempre jornalista”. “O jornalismo é sacerdócio”. “Podes deixar de praticar, mas não deixas de ser jornalista”.

Ao longo da vida sempre ouvi estas frases. Talvez por isso, quando os jornais deixaram de querer os meus serviços, por volta de 2013-14, tive problemas para estabelecer uma bioline. “Ex-jornalista” ia contra o cânone segundo o qual tu nunca deixas de ser jornalista. “Antigo jornalista” idem, além de soar pior. Usei ambos, sentindo-me sempre desconfortável.

Até que deixei de invocar o jornalismo; está no CV, aí permanecerá para sempre, foram 30 e tal anos, uma vida, quase toda a minha vida produtiva, mas faz já algum tempo que não é mais invocável no meu dia a dia. Ter sido jornalista não me confere qualquer grau, prestígio ou estatuto especial. Amig@s e leitor@s podem achar que sim, mas eu sei que não. Outros jornalistas no ativo, em pousio ou na reforma podem achar que sim e cada um falará por si, as vidas são diferentes.

Falo disto porque numa conversa que não vem ao caso com o Pedro Fonseca saí-me com esta frase: “o jornalismo é um campo que já não abarco de forma intensa e, confesso, o seu destino tornou-se-me indiferente”.

O seu destino tornou-se-me indiferente. A verdade, sem tirar nem pôr, é que eu deixei mesmo de ser jornalista. Não foi nada fácil desfazer-me da tralha jornalística, a começar pelo preconceito de ser uma profissão à parte, um salvador do mundo, um juiz supremo agindo em nome do povo. Dos tiques profissionais.

Durante duas décadas o destino do jornalismo foi um assunto de ocupação permanente. Escrevi sobre ele, teorizei sobre os desafios, participei em eventos sobre o tema. Fiz apps, webservices, escrevi código para ajudar a resolver problemas como as fake news, a repetição abundante e a perda da capacidade de filtragem.

Já tinha outra profissão e outro emprego full time e continuava a dar tempos livres à nobre missão de ajudar o jornalismo a salvar-se, a sair da agonia, a ressuscitar, a tornar-se novamente útil.

Isso apesar das dúvidas. Ou melhor: das quase-certezas sobre o não-futuro do jornalismo. Sobre o processo de transformação, de pulverização dos serviços e funções do jornalismo ao ponto de deixar de fazer sentido classificá-los com a mesma etiqueta.

E apesar da certeza sobre o tiro no porta-aviões do jornalismo: a gradual e irreversível perda de credibilidade, com o seu efeito de erosão. Às mãos sobretudo da própria classe, de forma ativa e passiva. Mas a classe também é vítima: não tem a mínima preparação para enfrentar e filtrar a produção de narrativas de todos os tipos, dos engodos à propaganda à falsidade à ficção.

Um jornalista chegado aqui dirá muito justamente de acordo com o seu treino: e o New York Times?

Esse é um dos mais resistentes tiques. Como se confunde com a natureza humana, um jornalista tem grande dificuldade em livrar-se dele. O jornalismo procura a agulha e ignora o palheiro. É a sua natureza. Realça o homem que morde no cão. O mundo prossegue, indiferente, com os cães a morderem o homem repetidamente, as leis feitas para isso, o efeito na economia, na sociedade, na política, dos cães morderem o homem é colossal, está lá. Mas não é notícia, não é assunto. A notícia é o homem que morde no cão.

A notícia é a anomalia.

Por cada caso de (relativo) sucesso como o NYT — ou, por cá, o Público — temos uma vintena de jornais que desapareceram? E isso importa para quê? O que importa é que temos um cromo para a troca de argumentos. Para manter a despesa da conversa.

(Como se houvesse ainda conversa.)

Tudo isso está certo, é a natureza do jornalismo e eu fiz parte dele (com orgulho e recompensa). Foi de tudo isso que me custou livrar-me. E uma vez livre olho de modo diferente para o mundo em que vivo. Cada vez mais me parece que não é o mundo descrito pelos jornalistas. Pode ser que seja apenas do meu processo, e não do afastamento deles, da sua incapacidade de resistir à lógica do incessante caudal informativo que os faz noticiar uma coisa e o seu contrário no mesmo período de uma hora, sem terem sequer reparado.

Um serviço de meteorologia diz que está enevoado e o outro diz que faz sol? Ora, repetem-se ambos — o leitor que vá ver se chove. Esta é a visão do jornalismo que ainda prevalece, permanece, serve de desculpa a quem está exausto de trabalhar incessantemente e não tem já tempo para equacionar, para pensar.

Para mediar.

O leitor hoje é suficientemente informado para ter as apps dos 2 serviços meteo e até sabe do site, ou segue no Facebook um perito, ou melhor ainda um amador informado e entusiasta, que diz tudo, que explica tudo sobre a chuva nesse instante e lugar? Muito bem: ficamos com os incultos e fazemos negócio a despejar-lhes a propaganda que alguém nos paga para lhes servir.

Talvez seja esse o destino do jornalismo. Até do dito de referência — cada vez que olho para o Expresso, o meu antigo jornal, o desalento invade-me. Dói vê-lo ter atirado a toalha ao tapete.

Ou talvez seja plataformizar-se, explorando a marca para publicar articulistas em todos os domínios para chegar à cauda longa (no fundo, esvaziando inteligentemente o que foi a promessa da blogosfera). Guardian, Times, WaPo e, cá, o Público e parece-me que o Jornal de Notícias está a entrar no caminho.

Ou talvez seja incorporar os automatismos e reservar o humano, o jornalista, para as tarefas de controlo de qualidade, mimando o que sucede em regra nos setores já sujeitos à automação.

Seja qual for, exista ou não, tornou-se-me indiferente. E não apenas como antigo jornalista: também como cidadão, e isto é mais importante e, admito, polémico. Como cidadão tenho hoje acesso a todo o tipo de fontes — de altíssima qualidade, de qualidade média, da qualidade necessária ou indicada para o meu caso, que é um caso diferente consoante o assunto — e tenho a disponibilidade das pessoas para falarem comigo, me esclarecerem as dúvidas, sejam cientistas, governantes, legisladores, prestadores de serviços.

As fontes” acima citadas são um grupo que inclui as pessoas que hoje produzem as investigações que antigamente iam parar forçosamente aos jornais ou eram realizadas dentro do âmbito deles. Hoje, não: vêm parar diretamente à minha mailbox, ao meu fluxo Facebook, à minha lista do Twitter. Posso até ter financiado a investigação — dispomos de múltiplas formas de o fazer.

Ou seja: não dependo das investigações aleatórias decididas pelas circunstâncias do editor de serviço, do seu patrão e do seu orçamento, posso incentivar investigações nos assuntos que considero relevantes para o espaço público. Sejam as moscambilhas deste político, seja a atitude lesivo daquela empresa, sejam as falcatruas operadas pelo grupo económico que compra o silêncio mediático tornando-se proprietário dos media, seja o comportamento daquele setor de atividade que explora um recurso natural, logo coletivo, sem respeito pelos stakeholders que somos todos nós.

Algumas delas, aliás, acabarão depois publicadas pelos melhores jornais, ou seja, os que mantiverem a independência, se tenham plataformizado e aceitem os contributos desses grupos de investigação autónomos — financiados por nós, eu, tu e outras pessoas individuais ou coletivas.

Não estou a teorizar. Assino meia dúzia de serviços muito focados em assuntos fundamentais — olha, toma o exemplo da https://heated.world/. E do https://www.investigate-europe.eu/en. Há tantos mais.

Poderás dizer: mas se são jornalistas como o Paulo Pena que fazem o Investigate Europe e se Emily Atkin se descreve a ela própria como uma “jornalista do clima”, o jornalismo não continua?

Sim e não.

Sim: o treino deles permanece e legitima o uso do termo até certo ponto.

Não: não estão subordinados às lógicas comerciais e editoriais e éticas dos jornais, como antigamente; a sua relação com a ética deixa de estar subordinada aos comités e resta unicamente como matéria de consciência; e há muitas outras pessoas a investigar que têm backgrounds não relacionados com jornalismo. Por exemplo: há cada vez mais cientistas de dados e programadores informáticos a desempenhar funções de investigação.

Contudo, e é o meu ponto pessoal, seja qual for o destino do jornalismo, tornou-se-me indiferente.