Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

13 de agosto de 2010

Possesso com a relação do país com os incêndios. A nossa falta de memória (e de lata) é ofensiva

Eu fico possesso com a relação do país com os incêndios. A nossa falta de memória (e de lata) é ofensiva. Chega a Agosto e o país indigna-se, ficando ao rubro, clamando por soluções e disparando culpas na direcção do costume (o governo). Assim que cai Setembro, puf, a indignação evapora-se tão depressa chegou.

O ciclo repete-se há décadas. Agora é apenas agravado pelo registo. Sabem, a Internet É MEMÓRIA. Azar do __________. Não vos levo a sério. A ninguém, fora do círculo bombeiros/responsáveis diretos. Ninguém. Eu incluído, media, “líderes de opinião escrita”, facebookers, twitters, bloggers — vão todos indignar-se para o raio que vos parta. Lembrem-se dos incêndios em Setembro e Outubro e Novembro e Dezembro, quando se pode realmente fazer alguma coisa de útil, ou mandar fazer, e eu talvez vos preste atenção.

Chega a época dos incêndios e as televisões babam por imagens de labaredas, de preferência perto de casas e se houver um gato chamuscado, então!, e as oposições insurgem-se, e os colunistas e os bloggers e nas redes sociais, cada cabeça reza uma sentença qualquer, e eu faço à minha maneira, que é indignar-me com a inconsequente indignação geral, pronto, ritual cumprido, já se podem calar.

O problema está super ultra mega hiper bem identificado e existe um extraordinário e absoluto consenso sobre como resolver, ou no mínimo minorar, os efeitos da época de incêndios. Mas nunca se faz a ponta de um corno. Nunca. Acaba Agosto e o calor e os incêndios e os bombeiros limpam a maquinaria para o ano que vem, o resto da sociedade alheia-se do assunto, os telejornais procuram a dose diária de choque e pavor noutro sítio qualquer.

Sabeis porquê? Porque só nos preocupamos com os incêndios quando eles estão activos. Digo eu: cada um de vós, 10 milhões de alminhas impressionadas, dirá o que lhe aprouver — sem que isso altere um milímetro a situação. De ano para ano para ano para ano para ano, é assim.

Tenho escrito sempre mais ou menos a mesma coisa, inutilmente, Agosto após Agosto. Tão inutilmente como a “discussão” pública, agora amplificada pelas redes sociais, sobre as causas, consequências e “culpados” (o culpado é, invariavelmente, qualquer pessoa exceto o culpado ele próprio).

A 18 de Agosto de 2003 já eu escrevia aqui sobre a época dos incêndios. Volto invariavelmente aquele “popular” que disse tudo ao microfone da TSF. “Foi há dez anos“, para ele, naquele ano. Foi sempre há dez anos. Mais 3 anos e terá sido há 10 anos que eu republiquei o que ele disse sobre ter sido há dez anos — e as matas continuarão a arder. Recupero o seguinte texto do arquivo (Incêndios: então até Maio!…, encoding do arquivo está errado).

agosto 18, 2003

Incêndios: então até Maio!…

Aproveito uma entrada de JC como deixa para escrever sobre um tema que me toca com profundidade rara: os incêndios.

Primeiro a citação: «Há uma semana fiz uma piada sobre os incêndios. Nem uma “marretadinha” dos leitores do blogue. Na madrugada de quarta-feira, escrevi sobre a voluptuosidade das adolescentes em biquini e ninguém comentou. A noite passada manifestei alguma satisfação pela derrota do Benfica e a blogosfera no activo caiu-me em cima.»

Depois a minha deixa, com um aviso prévio: as palavras que se seguem podiam ter sido escritas há precisamente um ano; ou há precisamente dois anos; ou há precisamente três anos; ou há precisamente dez anos; ou há precisamente vinte anos.

Respondo-lhe, caro JC: os cartões amarelos, penalties roubados e o fio de jogo do Benfica são assim uma espécie de pré-época antes da “rentrée” política que, com as manifestações comicieiras próprias do início de Setembro, arrumará o assunto “Incêndios” na gaveta mais recôndita dos arquivos. Pelo menos até Abril ou Maio não se voltará a falar disso.

Até dia 1 de Setembro, o rescaldo dos incêndios ainda coexistirá com a bola. Depois dessa data – ou, para ser mais preciso porque o calendário oscila todos os anos, depois do primeiro fim de semana de Setembro – os incêndios sumir-se-ão misteriosamente dos noticiários. Nunca terão existido. À parte os bombeiros estoirados, a limpar e reorganizar materiais; o luto dos familiares dos bombeiros e outras pessoas que pereceram nos incêndios; as contas à vida de quem perdeu tudo com a terra queimada e de quem lucrou imenso com a madeira ardida; a meia dúzia que tentará sacar do Governo os subsídios prometidos com solenidade nos piores dias de Agosto, à parte esses o país ignora olimpicamente o assunto.

Digo o país de propósito: o problema dos incêndios em Portugal é endémico e profundo. É um problema cultural. TODOS nós nos estamos borrifando para os incêndios. A começar pelos mais distantes de nós, os que vivem nos grandes centros urbanos e têm da floresta um afastamento físico e emocional inadequado mas até certo ponto compreensível, e a acabar nos que vivem na e da floresta.

Numa das aldeias que desapareceu do mapa, no distrito de Santarém, um habitante disse o mais importante e pungente que na minha opinião há para dizer sobre incêndios. Foi mais ou menos isto (transcrevo de cor a frase ouvida numa tarde de domingo na TSF): «há dez anos aconteceu o mesmo aqui. Que país é este?»

Mesmo os que vivem NA e DA floresta preferem pensar o Benfica, as fintas do Simão, o sai-fica do Camacho e a intriga politiqueira e cerimonial que alimenta os noticiários do prime time a discutirem, para resolver, o assunto das florestas. Não lhe levo a mal: sofrem terrivelmente em cada Verão que passa, têm direito a repousar a cabeça com caracacás.

A actividade política nos tempos que correm consiste em ser capaz de dar resposta rápida e com o máximo de alarido possível aos assuntos que surgem no quotidiano: prometida a solução, o subsídio ou a reforma, o Primeiro ou os seus Segundos partem para o próximo assunto quente, dossiers afadigadamente preparados pela resma de conselheiros, colaboradores e demais trabalhadores invisíveis da política.

No dia seguinte o assunto morreu, viva o próximo assunto – que os jornais e jornalistas e oposição estão aí, como cães a filar o osso (e consequentemente culpas no cartório da volatibilidade dos assuntos.)

Não há profundidade na actividade política.

Deixou de haver profundidade na actividade política. Foi devorada pelo correr do tempo, aprisionada pela ditadura do prime time, banalizada pela baixa qualidade geral dos democraticamente eleitos e inutilizada pela transferência de poderes de Lisboa para Bruxelas.

Nenhuma política de prevenção será gizada.

Nenhum plano de ordenamento será decretado (o imobilismo imposto pela força burocrática das autarquias comprometeria algum mesmo no caso altamente improvável ou meramente teórico de existir um governo com visão e vontade férrea de o decretar).

Nenhum esquema de combate aos incêndios será levado à consideração de quem manda, desconfiando eu embora que alguém o tenha elaborado, alguém que pode ser um chefe de bombeiros ou outra pessoa sensível e inteligente que pense que o combate é possível e saiba como.

Dos muitos suspeitos de fogo posto presos pelas forças (?) da “ordem” nenhum tem nome ou rosto e nenhum passará à condição de acusado, levando alguns a pensar que tudo não passou de manobra para português ver. Ou são todos inocentes – o que não é fácil engolir, mas enfim – e a investigação policial funcionou, ou… algo está errado num sistema que prende suspeitos à mesma velocidade que os liberta, sem que pareça ter existido alguma actividade entre as duas acções.

O Público fez uma boa reportagem, sugerindo dez medidas para combater o flagelo. Todas elas úteis, nem todas elas exequíveis, certamente. À parte esse contributo, nenhum outro media, que eu tenha conhecimento, mexeu um dedo em prol de uma floresta portuguesa menos frágil. (E mesmo o Público deixará de falar de incêndios nos próximos meses.) Não ouvi nem li nenhuma reacção institucional às medidas do Público. Cairam no saco roto dos políticos portugueses, poder e oposição. As três páginas dessa edição já forraram muito caixote do lixo e a edição online do Público passou a ter vida quase tão curta como a de papel, o que é uma desgraça.

Ninguém virá pedir responsabilidades a ninguém. Quem ficou magoado não tem acesso aos púlpitos mediáticos. Quando muito queixa-se à respectiva Assembleia Municipal que, como se sabe, tem um raio de acção minimalista. Quem lucrou tem o maior interesse em que não se fale do assunto: há mais madeira para arder no próximo Verão, tomara que as temperaturas estivais fossem sempre ao nível deste ano…

A vida prossegue. Aliás, na própria floresta a vida prossegue: o problema está em não deixarmos o ciclo de vida da floresta completar-se.

O assunto incêndios extingue-se em Setembro, com a temperatura do ar a baixar e a temperatura do futebol e da politiquice a subir. Em Abril ou Maio algum bombeiro zeloso virá a terreiro dizer que se aproxima a época e mais uma vez não há meios, algum jornal mais zeloso aproveitará para fazer uma notícia de quatro parágrafos no interior, eventualmente a tapar um buraco numa página.

Em Julho, Agosto – se as temperaturas ajudarem – o Inferno voltará e com ele o coro de lamentos, as fotografias dignas de moldura e de prémios, as imagens arrepiantes, os estarrecimento e pena dos coitadinhos da parte de Todos Nós, o Povo, e Primeiro e Segundos interromperão por um dia as suas bem merecidas férias para novas condolências públicas às famílias enlutadas, novos enaltecimentos à coragem dos bombeiros, novas promessas de meios.

É um ciclo fechado. Não vejo maneira de o interromper. Sinceramente, não vejo forma de quebrar esta maldição nas próximas décadas (ou enquanto houver floresta). É por isso que os incêndios me doem mais que tantas outras desgraças: porque habito um país de impotentes e incipientes.