Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

28 de agosto de 2008

[repost] A banda maldita do punk

The StranglersSe há uma banda maldita da era do punk, são duas na verdade e a outra foram os Gang of Four. Senhoras e senhores, apresento-vos The Stranglers.

Os Stranglers eram maus. Já na altura, os Stranglers eram maus. Dizia-se aliás que nem eram punks — o que em 78 era votar uma banda ao pior ostracismo. Suponho que diziam isso porque The Stranglers já bebiam cerveja e tinham problemas com drogas quando os Sex Pistols começaram a escanhoar os pelos faciais. Outra razão para serem uma banda maldita é que tiveram o enorme desplante de sobreviver ao punk e à adolescência, embora esta última não esteja totalmente comprovada.

Dizia-se sempre o pior dos Stranglers, Deus os protega, acarinhe e conserve por isso. Eu uma vez vi-os num concerto em Cascais, no antigo pavilhão do Dramático: recordo para sempre o cheiro das luzes brancas e do JJ Burnel em tronco nú a desfazer o baixo — um dos melhores baixistas eléctricos do rock, apesar de ter comprado o instrumento para entrar para a banda, comprando-o ao vocalista Hugh Cornell, um dos gajos mais esquisitos que Londres já viu, e se Londres VIU gajos esquisitos!

Eu falei em gajos esquisitos? O que dizer de Jet Black? Não se deixem enganar pelo pormenor do nome, Jet Black: o baterista dos Stranglers era um bem sucedido e entediado homem de negócios londrino e dirigia uma frota de carrinhas de gelados no ano em que Otelo armava por cá o Grande Sarrabulho do 25. Comprou um kit de percussão, respondeu ao anúncio “baterista, precisa-se”, na Melody Maker (“a” revista) e duas semanas depois trocou os gelados pela (mal sabia ele) fama.

Burnel, que gostava era de filmes de porrada e kung fu e estudava artes marciais, andava à boleia quando foi parar a baixista dos Stranglers, as suas linhas e a sonoridade martelada omnipresente ainda hoje são copiadas com devoção embora haja quem suspeite que ele preferia ter continuado a estudar karaté. Cornell, bem, além de um rosto e uma voz duríssimas, de empregado das docas, cantava melhor que qualquer líder do PCP fazia comício (estou a falar da representatividade que um trabalhador sente e para me compreenderem vejam o video abaixo).

Todas as bandas têm altos e baixos — mas nenhuma banda oscilou tanto de prondução como The Stranglers. É teoricamente impossível as mesmas cabeças e braços produzirem Rattus Norvegicus num ano e Golden Brown no outro — mas os Stranglers fizeram-no.

Mais: fizeram-no e, fazendo-o, fizeram história inadvertidamente.

É por isso que são a banda maldita do punk.

A cambada de armados em esquisitos que dá pelo nome de punks sempre olharam de esguelha para aquela trupe sem nome — ao lado da qual não passa de um grupelho de adolescentes a apanhar a primeira buba.

(…)

An angel came from outside

Had no halo

Had no father

With a coat of many colours

He spoke of brothers many

Wine and women

Song aplenty

He began to write a chapter

In history

Nice ‘n’ sleazy

Nice ‘n’ sleazy does it

Does it every time.

The Stranglers – Nice ‘N’ Sleazy. (Leitores por feed e newsletters, link para video no YouTube)

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