Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

2 de janeiro de 2012

2012: adeus, 25 de Abril; adeus, democracia; adeus, economia de consumo

2012 será o ano em que se acaba de vez com o que para muitos portugueses foi o sonho de uma sociedade evoluída: a mudança de regime provocada pela revolução dos capitães, conhecida pela data em que ocorreu, 25 de Abril (de 1974).

A maioria da população não hesitou em sancionar nas urnas um modelo de organização social que afasta Portugal decididamente do trilho de prosperidade em que entrara por força da mudança de regime, e no qual se manteve com algum esforço e demasiada leviandade durante quase quatro décadas.

Um dia conheceremos melhor os meandros mediático-sociológicos que enquadraram o jogo entre forças do qual saiu esta opção pelo empobrecimento das classes que sustentaram o crescimento económico e o avanço civilizacional.

Não apenas em Portugal, mas também na Europa, 2012 poderá trazer-nos o início do fim da democracia — ou, no mínimo, o tomar de consciência, por parte de massas e algumas elites, de que a democracia tem vindo a perder os sinais de pureza, deixando-se contaminar, e surgindo aos olhos de maiorias cada vez maiores como uma farsa de marcações rígidas, argumento viciado e nenhum espaço para a criatividade dos intérpretes.

Esta noção de uma democracia levada ao extremo da representação teatral está bem patente tanto na crescente desilusão manifestada por intelectuais americanos — baseados em diversas manifestações, sendo uma das mais recentes os movimentos sociais de desiludidos, insatisfeitos e deserdados, massas cada vez maiores para as quais a sociedade americana cessou de encontrar propósito ou justificação existencial — como na “resposta” política na União Europeia à crise financeira que assola o mundo, trucidando precocemente governantes. Sintomático, despudoradamente sintomático: dois dos 27 países da UE passaram a ser governados sem a preocupação da legitimidade eleitoral. Noutros dois casos, a composição de governos que ainda foram eleitos reflete uma crescente ocupação dos cargos pelos representantes diretos das corporações de poder financeiro, substituindo a anterior forma mediada de poder que permitia a negociação com os setores menos poderosos e mais desprotegidos.

Sintomático, ainda, que ao longo do ano tenhamos assistido ao esvaziar da função das representações europeias eleitas para tal, dando lugar à imposição da vontade da economia mais forte.

Em 2012 assistiremos, creio, à aceleração do esvaziamento da economia de consumo. O empobrecimento de fatias estatisticamente significativas da população dos países onde o capitalismo já atingiu a fase madura terá como (uma das) consequência(s) um abrandamento no consumo dos bens de produção em massa. Há uma relação causa-efeito com os cada vez menores custos de produção, para no final chegarmos a um ponto em que esse cabaz de bens e serviços produz lucros insignificantes.

Mais acima na pirâmide os efeitos serão mais intensos: a diminuição no poder de consumo das classes médias levará a um surto de falências nos setores dos bens e serviços não essenciais — os que dão, ou davam, um contributo mais significativo para a economia privada e pública (através dos impostos) e para a noção de enriquecimento e de melhoria de condições de vida.

Em 2012 aprenderemos uma expressão que já começou a abrir lugar no ano passado. O pós-consumismo.

Em 2012 continuará o grande equívoco que impede as massas de pessoas em perda de direitos e riqueza de se oporem, resistirem ou interferirem no ciclo de empobrecimento prosseguido nos países da base, onde o problema se fez sentir primeiro. Antes conhecidas como “trabalhadores”, essas massas — que grosso modo abrangem quase toda a gente desde o lumpemproletariado (que regressou ao crescimento) aos profissionais liberais da média burguesia — não dispõem de nenhum dos dois únicos mecanismos garantidos de reivindicação do que considerem ser seu.

Um deles é a escassez de competências — o que se verifica é precisamente o contrário, a superabundância que baixa o preço de mercado. A quantidade de oferta de trabalho supera largamente a procura.

O outro mecanismo é a unidade. Ora, há muito que os organismos que permitiam consolidar a unidade e torná-la numa ferramenta política foram desarmadilhados. Em Portugal, o último dos sindicatos está a dar as últimas: os trabalhadores da CP. Mais algumas semanas e serão vistos não como vítimas de um processo, mas como os seus executores.

Este tipo de organizações mostrou-se incapaz de resistir à armadilha da complexidade mediática, sendo por esta facilmente esvaziada.

Em 2012 o problema do pós-consumismo comneçará a tocar as economias europeias do topo. Primeiro indiretamente, mais tarde de forma direta. É com grande curiosidade que aguardo a resposta de alemães (sobretudo) e franceses à sua própria recessão económica e às danças nas colunas do deve e haver. O défice de uns países é o superavit de outros — o que significa que a dívida acabará inevitavelmente por ter de ser contabilizada como um prejuízo do lado do emprestador, arruinando o “bonito” orçamental.

Sem as classes médias europeia e americana a escoar a produção das fábricas alemãs, o que farão estas? As economias emergentes serão capazes de repor os milhões de consumidores que estão a ser expulsos da Grande Feira nas economias submergentes?

É improvável. Por uma simples razão, chamada globalização. O valor de um produto alemão já não tem um nível de incorporação do país semelhante ao do século XX. A deslocalização, por um lado, e a menor componente humana do trabalho de qualidade, por outro, contribuiram para irrelativizar a geografia. A internacionalização do capital — bem como a sua opacidade — aumentou a rivalidade entre países, sendo arma importante a benesse fiscal. As proteções legais a indústrias inteiras são estrategicamente importantes e continuarão, mas com peso cada vez menor na balança global.

Como exemplo figurativo, o BMW que o novo burguês brasileiro vai adquirir, só levará alguns marginais euros para a Alemanha, pois saiu de uma fábrica na China, construída com capitais asiáticos e americanos.

Como se pode ver, 2012 vai ser um ano interessantíssimo. Cheio de oportunidades, repleto de acontecimentos inesperados e precipitados, que cada um de nós deve aproveitar o melhor que souber e puder. A informação é um bem importante. Procure a boa informação, caro leitor, porque 2012 também nos trará um dilúvio de notícias totalmente irrelevantes, que tornarão mais difícil procurar a agulha no palheiro. E não vai ajudar nada, em Portugal como nas outras sociedades maduras, uma indústria do jornalismo desequilibrada, com uma anormal desproporção de estagiários e precários, quando a sociedade mais precisava da proporção contrária: jornalistas experientes, capacidade interpretativa e discernimento a rodos nas Redações.

(Imagem: yanfenchang)