Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

24 de março de 2011

A berbintice de Passos e a política copy+paste

Fazer a vontade à parte blogo-mediática das suas bases e aos sargentos incapazes de gerar o seu próprio emprego que se viram para o Estado do costume foi um erro de Passos Coelho.

Não era no país que Passos estava a pensar. Se fosse, tinha empurrado a batata quente para o Presidente e aguentado a pressão dos apressados do seu partido. Isso sim, era ter sentido de Estado.

Era nele. E foi aí que cometeu o erro. Porque nenhuma das soluções lhe é favorável.

Se Cavaco optar por dissolver a Assembleia, é tudo menos líquido que o PSD vença as eleições de forma a garantir um reinado laranja. Desde logo, não é sequer garantido que as vença. A margem que separa na realidade — refiro-me à realidade que as sondagens mostram, e não à realidade que os spinners social-democratas acham que está, uma vez que é a primeira que vota — o PSD do PS é estreita.

Por um lado, não chega para a maioria absoluta — nem a situação político-social é de molde a que as as estratégias pré-eleitorais possam, sequer, pensar em trabalhar “essa vertente” para lá chegar.

Por outro, nem sequer é líquido que os dois partidos de direita consigam a maioria para formar um governo de coligação — que seria forçosamente um governo fraco e insatisfatório para a referida trupe de garimpeiros de regalias.

É uma berbintice todo tamanho interpretar as manifestações das últimas 3 semanas em Portugal como indicadores de descontentamento canalizável pelo PSD. A situação social favorece bem mais o reforço da esquerda parlamentar, sendo que as classes mais afetadas pelo desaparecimento da economia engolida pela finança não são as tradicionais eleitoras da direita, pelo contrário.

Uma boa parte dos manifestantes tem tantas ou mais desconfianças do PSD como do PS. Desconfia da classe política em bloco. Está muito melhor informada (ler: vacinada contra o spin e a propaganda dos meios convencionais) do que pensam os que não perceberam nada do que se passou naquele sábado histórico. E não vai nos truques do antigamente, como o da “lei da alternância democrática”.

Armar uma rasteira para eleições antecipadas SEM BASE ELEITORAL VISÍVEL é uma decisão altamente arriscada, para dizer o mínimo.

Se Cavaco optar — como lhe pede o que no país ainda sobra de responsabilidade e cabecinha — por um governo de entendimento, seja de iniciativa presidencial, seja de “coligação alargada”, seja de qualquer outra designação, então Passos Coelho perdeu a jogada.

Um governo formado a partir de Belém terá de ter um Primeiro Ministro que em primeiro lugar não pode ser figura de nenhum partido — para isso íamos a eleições. Pá.

Um governo formado a partir de Belém minimizará forçosamente o papel do PSD na governação, dando palco — e espaço — à renovação do PS. Internamente, será insustentável: Passos vai a Ministro de Estado mas torna-se em dois tempos mais uma anã-branca na constelação de estrelas falhadas da política portuguesa, cedendo ao senhor que se segue no seu partido (que ainda por cima é um peso pesado, um camião TIR que o atropelará como um coelho na auto-estrada Porto-Lisboa).

 

A política copy-paste

O PSD não tem sido capaz de se distinguir do PS, enquanto alternativa de liderança do país. Mas isso é o menos.O mais é que  o PSD se tem vindo a aproximar de um médio partido, como o PCP e o CDS (o Bloco não conta enquanto insistir naquela de partido adolescente). Sem um verdadeiro general, tem exibido o mesmo tipo de estratégias que vemos no CDS. Não criou um governo-sombra, um programa de governo alternativo, uma ambição supra-partidária e um projeto ou ideia capaz de entusiasmar o eleitorado flutuante.

É certo que em política a forma é importante. Mas o eleitor pressente a falta de substrato. Passos tem de apresentar mais do que aquela pose teatral para ser convincente. Já nem digo governar o país: a política copy+paste e cumprir a cartilha recomendada pelo marketing são insuficientes para ganhar eleições. Em especial quando o momento é delicado, como este é. Em especial contra adversários extraordinariamente resistentes, como são – descontados piedosamente os adversários internos – os três adversários de Passos neste momento.