Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

19 de abril de 2008

A crise do PSD e os seus "efeitos"

crisepsd.jpgLuís Filipe Menezes sacou de um dez de copas e, com um gesto encenado para as galés laranjinhas, deu um murro na mesa para bater dramaticamente a carta. O gesto tem significados diferentes para quem está de fora ou quem está de dentro.

Comecemos por quem está de fora.

José Sócrates e o seu governo respiraram de alívio: a Imprensa vai ter com que entreter os microfones e ao Professor Marcelo vão sobrar apenas curtos intervalos para criticar o governo, instado a pronunciar-se sobre os acontecimentos e não resistindo a querer influenciá-los.

Eu divirto-me. É como com o entretenimento em televisão: quando pensamos que não é possível descer mais baixo, um novo “formato” importado de países com mais décadas de concorrência no Grande Mercado do Sabonete faz-nos estarrecer de novo.

Sim: é possível descer mais baixo. Quando se encena uma demissão que faz reféns os “críticos” e tem por única saída a recondução do demissionário em plebiscito com aclamação, desce-se mais baixo. Se o PSD fosse um jogo de sueca, isto equivalia a ganhar uma vaza com um dez de copas a meio do jogo.

Quem está de dentro rejubila. Há quem consiga imaginar tratar-se da Grande Oportunidade Para Limpar O PSD, O Momento De Reorganizar Uma Nova Direita Sem PSD, A Altura Certa Para Acabar Com O Centro Clientelar Do Estado — delírios que não trazem mal a ninguém, sejamos justos. Mas em matéria de efabulação ninguém bate o Dr. Pacheco Pereira, que consegue a extraordinária proeza de avançar um cenário em que um “salvador” (nas suas palavras, “uma personalidade que pela sua autoridade nacional, prestígio interno e externo”) surgiria do nada (realmente: de onde mais?) e em ano e meio tornar-se-ia credível face ao PS e a Sócrates, com “condições de ganhar as eleições em 2009″.

Vou deixar passar em claro este lugar comum completo, total e rigorosamente balofo que por estes pobres dias do PSD e da democracia nacional passa por “análise política”, porque nem quero pensar que o Dr. Pacheco Pereira se perfila ele próprio à altura da missão. Crítico de Luís Filipe Menezes, vá que não vá. Mas nem o PSD é o CDS nem Pacheco Pereira é Paulo Portas (embora, admito, neste caso se tenha comportado como ele).

Mas além do frenesim opinativo da Imprensa e da blogosfera, do Sitemeter do Abrupto, da audiência da RTP no domingo à noite, do sorriso duplo de Menezes e Sócrates e de a direita jovem que se diz “liberal” (os iznogudes do PSD/CDS) achar, esperançosamente, que this is it, não vislumbro mais nada nos efeitos desta crise no PSD.

O “elenco”

Daniel Oliveira antecipa, para um inquérito à esquerda, cinco nomes.

Rui Rio. Rui Rio. Rui Rio? Rui Rio…

Manuela Ferreira Leite. Não.

Pedro Passos Coelho. Depois.

José Aguiar Branco. Quem?

Luís Filipe Menezes. Bruxo.

Uma palavra, ainda, para os iznogudes. Eu também gostava que isto mudasse (embora não para o mesmo lado) — mas mais depressa ficamos sem democracia para dar continuidade ao esquema Estado-Clientelas do que se quebra o elo de alternância entre os dois partidos de governo que são o garante de funcionamento institucional para quem efectivamente é proprietário do país e da sua produção.

Menezes é a comichão de que o PSD ainda não se livrou e esta crise epidérmica vai passar com mais ou menos arranhões de tanto coçar — mas o que quer que tenha de acontecer de profundo ao partido, não acontecerá antes de 2010, quando a máquina do dinheiro se puser em movimento para chegar às eleições de 2013 com um rosto fresco.

É que, sabem, o eng. Sócrates vai acumular erros e acabar por perder. Chama-se democracia. Não passará deste século, talvez de metade dele, mas por enquanto está viva. Perguntem a Pedro Passos Coelho se não é assim.