Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

28 de abril de 2008

A falsa modernidade e a falsa mudança

Pedro Passos Coelho

Começo por afirmar que gostaria imenso de poder ver em Pedro Passos Coelho o homem cuja imagem os shapers estão a começar a moldar. Ele é da minha geração, menos uma irrelevância de anos, e qualquer pessoa gosta de ver caras novas na política e ambiciona que o poder chegue também aos que reconhece à sua volta, horizontalmente (estou a falar de gerações).

Mas a “modernidade” e a “mudança” são conceitos que não resistem a uma análise simples ao discurso e à presença, a par de uma curta viagem pela memória.

A modernidade e o “futuro é agora”

Por muito que me queira esforçar, não consigo ver onde está a modernidade de Passos Coelho, um homem invisível na Internet, por exemplo. Internet que hoje é incontornável — estejamos a pensar na discussão da res publica, no debate ideológico, no contacto com os eleitores e simpatizantes, no seguimento da política, na observação da cidadania.

Googlem Pedro Passos Coelho. Nada saberão sobre quem é, o que pensa, como se afirma, o que debate. Dele a rede conhece (parte d)o que os jornais publicam e os blogues catrapiscam.

Pedro Passos Coelho não tem o I’m feeling lucky do Google (o primeiro resultado para o seu nome). Isto apesar da invulgaridade do nome ser de molde a bastarem 6 euro e uma página tipo cartão de visita para em 2 meses o obter.

Quem o tem é a TSF.

Pedro Passos Coelho não tem ficha na Wikipedia (sei que é inacreditável, mas é verdade, confiram por favor; e na Britânica ainda menos).

Pedro Passos Coelho não tem conta no Hi5.

Pedro Passos Coelho não tem blogue ou página pessoal. Nem sequer agora foi capaz de abrir um, tiveram o fazer, com um “blogue de apoio”, alguns dos deslumbrados com o que a sua candidatura “poderá fazer” ao centro-direita português.

Pedro Passos Coelho não tem Twitter.

Pedro Passos Coelho, ou alguém por ele, abriu em tempos uma conta no LinkedIn, que nunca usou.

Pedro Passos Coelho não tem uma foto oficial ou um kit para os media, quanto mais uma conta no Flickr.

Se eu quiser uma biografia de Pedro Passos Coelho, nem no site da Jota a encontro.

Pedro Passos Coelho não está no Facebook.

Em suma, o “jovem” Pedro Passos Coelho, tentado lançar como o candidato do futuro, não está onde estão a maioria dos seus eleitores e apoiantes naturais.

Em suma, as gerações abaixo dos 30 anos não fazem a menor ideia sobre quem é aquele que lhes afiançam por aí ser o “seu” candidato e como ele (também) não tem perfil no MySpace nem canal no YouTube, é pouco provável que venham a saber quem é. Ligar a televisão é uma seca e jornais é coisa de velho.

Em suma, nenhum candidato dependerá dos media sociais para se fazer eleger, mas desprezar um meio que tem mais gente a socializar do que leitores têm a Imprensa e a rádio somadas, não me parece nem grande ideia nem — cá está — um sinal de modernidade ou de alguém que caminha para o futuro.

É claro que um imagem se constrói — só que com tijolos é mais fácil do que com nadas.

A “mudança”

Eu gostava imenso de ver um jovem — mesmo um jovem no melhor dos quarentas — arrebitar caminho dentro da hierarquia de um partido tão cinzenta, balofa, envelhecida, gasta e repetitiva como é o baronato do PSD.

Ma quando leio isto, não há anfetaminas que me despertem: “Não tenho dúvidas de que é possível vencer a crise. Não nos falta nem inteligência, nem determinação, nem capacidade de trabalho. Da minha experiência como político e como gestor, concluí que a Portugal e aos portugueses falta sobretudo mais capacidade de passar das palavras aos actos

E o discurso contra o Estado é um piscar de olhos aos aventureiros da direita, mas nunca ganhará eleições em Portugal. Porque quem faz a economia de Portugal, e a fará nos próximos 25 anos ou mais, não alimenta nenhum tipo de ilusões sobre a real mola financeira e económica da sua actividade e sabe perfeitamente de quem depende. “É fundamental que abandonemos a mentalidade que vê no Estado o motor do desenvolvimento económico. O Estado não vê tudo, nem dá resposta a tudo. Enquanto esperamos pelo impulso do Estado, muito tempo passa, muitas oportunidades se perdem… e muitos elefantes brancos se constroem. A verdade é que o motor do desenvolvimento são e serão cada vez mais as empresas e todos aqueles que nelas trabalham“.

O motor do desenvolvimento português foram e serão por muito tempo, ainda, as obras públicas e os dinheiros públicos ainda que comunitários, sem elas e eles o privado encolhe-se e definha. Sem a I&D pública não haveria gente qualificada em número suficiente para as empresas operarem. Nem toda a mão de obra se pode sub-contratar.

A memória

Recordo o líder da Jota. Um jovem com boa aparência e uma voz bem colocada, a minha mulher diz “bonita”.

Óptimo — entra no eleitorado urbano feminino, que é importante.

Mas não consigo recordar mais nada. E não se trata de uma crise de amnésia: Pedro Passos Coelho não tem passado para apresentar. Atenção: isto até podia abonar em favor dele, não digo o contrário.

Podia — se o eleitorado soubesse quem é Pedro Passos Coelho, se as gerações que lhe podem proporcionar uma “vaga de apoio” no mínimo tivesse um canal aberto para ele.

Podia — se os “descamisados” sub-30, soubessem ao menos quem ele é “da net”.

Pedro Passos Coelho representará muita coisa para o futuro do partido e quiçá da política nacional (eu acredito, como João Miranda escreveu há já alguns dias, que uma derrota agora é o melhor para o pós-2009) — mas não representa nem a modernidade (googlem Santana Lopes ou Luís Filipe Menezes) nem a mudança (ainda não o vimos mudar nada, excepto de camisa).