Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

25 de maio de 2009

Quatro respostas sobre as campanhas eleitorais online

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O José Pedro Pinto, do Jornalismo Porto Net, enviou-me quatro perguntas no âmbito de uma peça que estava a redigir acerca das campanhas online (ler: Eleições 2009: “Partido sem presença online não é digno desse nome”). As minhas respostas já não foram a tempo de publicação no JPN, mas ficam aqui como contributo para um assunto que, não sendo o principal do debate político, nunca foi tão importante como nesta tripla campanha de 6 meses de duração.

1. Depois da “febre online” com a campanha de Obama, os maiores partidos políticos portugueses começam agora a apostar, de forma maciça, na web para divulgar os seus ideais e políticas. As vantagens passam apenas pela conquista do eleitorado mais jovem, mais ligado às novas tecnologias?

Não. A primeira vantagem que os partidos procuram é passar para a comunicação tradicional os sinais de “modernidade” e de “adesão”. Nenhum partido entendeu, sequer, como comunicar com o eleitorado mais jovem presente na Internet — com a excepção provável do Bloco de Esquerda, que é o que tem feito melhor trabalho de forma continuada, desde há anos, e que penetra, graças a esse trabalho mas também à estratégia de proximidade offline, num eleitorado jovem, urbano e intelectualmente mais exigente, que lida cm naturalidade com as tecnologias a que continuamos a chamar de novas apesar da sua provecta idade (a WWW tem 20 anos).

Os principais partidos aspiram, aqui, continuar a chegar a algum eleitorado acima dos 40 anos, com formação superior e algum interesse pela vida pública — as pessoas que trocaram a informação televisiva, cada vez mais esterotipada e com propensão à frivolidade, pelo consumo de informação nos sites e de opinião nos blogs.

Agora: usar a Internet somente para divulgar ideais e políticas é como comprar um Porsche para andar na cidade: um aparatoso desperdício. O potencial e a versatilidade da rede não são aproveitadas de forma significativa por nenhum dos grandes partidos. Ao contrário, movimentos como o MEP exploraram bem a comunicação reticular. O tempo mínimo de formação do partido é um dos resultados visíveis: passar do zero absoluto a partido formado com expectativa de passar o 1% nas primeiras eleições a que concorre, isto em menos de meio ciclo eleitoral e com o esperável silêncio dos OCS, não teria sido possível sem as redes sociais e uma presença aceitável nelas.

2. Crê, realmente, que esta colagem dos partidos políticos portugueses às estratégias de Obama trarão resultados francamente positivos para as suas campanhas?

Não. Creio que é um inútil desperdício de energia e meios. A campanha de Obama resultou por ter um candidato específico e ter sido uma inovação a vários títulos. Mas as lições deviam ter sido aprendidas. Não creio que tenham sido — pelo menos a avaliar pelos resultados até aqui.

3. Se pudesse estabelecer um paralelo entre a aposta na web de PS e PSD (os dois maiores partidos políticos em Portugal), qual dos dois venceria a luta pela conquista do espaço online, no actual contexto?

As eleições ganham-se nas urnas. Na web comunica-se. Digam os partidos o que quiserem dizer nesta matéria, em que a falta de instrumentos de medição, e de uma imprensa permite as afirmações mais gongóricas, nenhum o está a fazer com eficácia.

Em geral, diria que no arranque o PS ocupou espaços mais depressa e melhor, surgindo já “conhecido” do Google (faça a pesquisa por “Vital” ou por “Rangel”). Mas a rigidez discursiva do PS não é a mais indicada para este meio. E o PSD está a ter melhor blogosfera, o que nos dias que correm já é marcante, pois a blogosfera — a opinião com esteróides — acaba por alimentar a opinião publicada nos OCS. A prova disso é a leitura dos resultados das sondagens pelos órgãos de comunicação social: os números não mudaram significativamente, mas a percepção deles mudou de tom de forma dramática. Contendo basicamente a mesma quantidade de água, ou até um tudo nada menos, o copo passou de meio vazio a meio cheio. Claro que a prestação do cabeça de lista europeu está na origem dessa mudança interpretativa — mas não considero desprezável o contributo da aguerrida e concertada blogosfera de direita para essa alteração do tom das análises.

Na realidade numérica, o PSD desceu e a última sondagem é a pior das cinco sondagens relativas às eleições europeias que já se fizeram de Abril para cá. Da primeira para a última as intenções de voto no PSD baixaram 8 décimas e as intenções de voto no PS subiram 12 décimas — ou 1,2 por cento –, logo o fosso entre os partidos aumentou.

A realidade interpretativa é outra. Esta última sondagem foi recebida como uma prova de que Paulo Rangel tinha “invertido” a situação de perda do PSD. O uso de expressões como “empate técnico” — tão verdadeiro hoje como em Abril, ainda que um pouco menos legítimo se nos incomodarmos com detalhes como o rigor — surge como uma preciosa muleta não tanto linguística, mas de desejo: o wishful thinking, tão importante em comunicação, gostemos ou não.

Não estando disposto a aceitar que jornalistas que conheço e prezo precisem de demontrar que “pensam positivamente” acerca do desempenho do PSD, resta rebuscar nessa dose de “entusiasmo” “feita surgir” pela blogosfera e personificada por um candidato de emérita oratória e lesto na adjectivação, as raízes da mudança de percepção da quantidade de água no copo.

4. Nos dias de hoje, qual das redes sociais mais conhecida pelo público em geral poderá representar a “pedra de toque” na tentativa destes partidos em conquistar o eleitorado: Hi5, Twitter, Facebook…? E porquê?

Não me fiaria em nenhuma dessas. No Hi5 não se faz política: namorisca-se e socializa-se. O Twitter tem sobretudo informação a meias com trivialidades e é difícil extrair uma direcção ou um sentimento de um meio tão imediato. O Facebook está na fase “bem”, o que implica que não se debatem ideias, debitam-se chavões e reafirmam-se apoios pré-existentes. Ainda que o Twitter possa, com o impacto que só as mensagens curtas contém, “mexer” alguma blogosfera que nele busca a capacidade de choque e a inspiração para o soundbyte, acredito que o termómetro deve ser colocado na publicação online — os blogs.

Talvez olhando para os diversos fluxos — o mediático tradicional, mais os media sociais, como a blogosfera e o Twitter — se possam extrair dados para uma análise menos superficial. Nisso, o dossiê eleitoral do Público, em http://eleicoes2009.publico.pt, procura ir mais longe: constituindo-se como um dossiê informativo de largo espectro — mais nenhum OCS se deu ao luxo de construir um agregador completo, apontando as notícias relevantes MESMO QUE tenha sido a concorrência a dá-las; mas em especial como uma ferramenta capaz de medir o pulso aos diferentes meio, até com o recurso à linguagem gráfica. Realidade diferente implica buscar formas diferentes de a abarcar, para a poder explicar.

(Publicação simultânea com Eleições 2009)