Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

31 de julho de 2009

#BlogConf 5: os bloggers

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Os bloggers aderiram como eu esperava e comportaram-se como eu esperava, quase à vírgula. Falo do universo ds presentes e inscritos, caberá a cada um de nós aceitar até que ponto uma fracção ínfima da blogosfera pode ser representativa dela.

Foram correctos e educados. Dispunham de uma única pergunta, o que é um pouco limitativo e deixa à sorte algum papel: pode ser a pergunta mais feliz, u a mais infeliz.

Os bloggers à partida mais críticos não foram, em regra, os mais contundentes nas questões. Não me surpreendeu. Por exemplo, já antes vira Rodrigo Moita de Deus (31 da Armada) preferir os assuntos laterais onde pudesse ter graça, ou apanhar a pessoa de surpresa, do que atalhar a direito. Mas as suas descrições em directo da BlogConf arrancaram-me um par de sorrisos, igualmente em directo, e por um triz não soltei uma gargalhada.

Refiro ainda a atitude de João Gonçalves, porventura o blogger crítico mais cerrado dos presentes, e dos mais admirados pela ala direita e respeitado em geral. O seu artigo manteve-se fiel à linha do Portugal dos Pequeninos e não se importou de, uma vez não são vezes, “dizer bem de Sócrates” — mesmo sob pena dos leitores, identificados e anónimos, o zurzirem nos comentários pela blasfémia. Não lhe ofereci ajuda porque a dispensa, tem dedos para os aguentar e a mais um bando dos comentaristas a soldo que topo à légua, sobretudo porque não se preocupam em esconder o ferrete do barão que manipula os seus neurónios.

Ouvi comentar, finda a sessão, que “afinal” os bloggers eram “macios”. Dois pontos?

Em primeiro lugar, os bloggers estão habituados à crítica resguardada. Há um teclado, um rato e um monitor entre eles e o objecto da crítica. Não é a mesma coisa que fazer um face a face — ora, até um telefonema é mais complicado, comporta alguma exposição ao outro.

Em segundo lugar, os bloggers não são inquiridores profissionais, como os jornalistas. Ou, vá lá, inquiridores regulares. Dispõem de poucas (ou nenhumas) ocasiões para realizar entrevistas. Refiro-me a entrevistas a pessoas com algum tipo de destaque, como os políticos em exercício ou candidatos, bem entendido. Uma escassa minoria tem algum tipo de acesso também escasso, outra minoria gostava de o ter e consegue projectar que o tem, como aqueles jovens adultos que contam aos amigos o empolado número de conquistas, e a imensa maioria não tem acesso algum.

Sabendo disto, não me surpreendeu a verificação, mais uma vez, da suposta “cobardia” do blogger, um gigante a criticar refugiado atrás do teclado, mas incapaz de fazer a pergunta quente quando em presença do entrevistado.

(Piora dez vezes quando o entrevistado é o Primeiro Ministro. Piora 50 vezes quando o Primeiro Ministro é José Sócrates.)

Suposta e entre aspas porque não me parece que seja cobardia alguma. É apenas menor experiência e míngua de oportunidades.

Até por isso, esta BlogConf foi — em meu entender — importante. Deu um passo mais à frente no caminho da normalização do papel do blogger no espaço do debate público, contribuindo para diminuir a sua dependência dos media tradicionais e dos jornalistas, que ainda dispõem de acesso privilegiado à classe política. Um caminho iniciado em eleições mais antigas, mas que teve passos firmes, finalmente, este ano, com uma reunião de Paulo Rangel com bloggers, a participação da líder do PSD num evento, e as transmissões directas do MEP — o partido praticamente feito “em cima” da Internet.

Assumindo a abertura e o risco dos espaços não-controlados, a BlogConf foi mais longe que a mera acção de campanha e marcou o território comunicacional posicionando-se na zona das conferências de Imprensa. Com as quais, aliás, se virá um dia a misturar, acredito.

Esperando que venham a realizar-se mais, no âmbito do PS bem como de outros partidos e entidades, sei que o naipe de bloggers que participou desta primeira BlogConf não se repetirá. Sei que melhoraremos os processos de inscrição e selecção, que são tremendos e complexos — basta ver as reacções das dezenas de bloggers que ficaram de fora e gostariam de ter estado lá para perceber que a blogosfera não tem dúzia e meia de publicações candidatas à acreditação ordeira: tem centenas a acotovelarem-se por um lugar.

E sei que os próximos já estarão mais à vontade que estes para o face a face.

Adenda: mentes cabalísticas afirmam, quando não insinuam, que as perguntas dos bloggers foram encomendadas. Julgam estar a insultar Sócrates. Não estão. Estão a insultar os bloggers presentes. E isso é mau. É desleal.

Devo isto aos bloggers, para quem o evento foi concebido: as perguntas não foram sequer escrutinadas, antes da sessão ou já dentro dela, quanto mais encomendadas.