Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

1 de maio de 2010

Caso Gago comprova: Internet e pirataria, isso é tudo a mesma cáfila

“Hoje em dia um grupo pode adquirir uma notoriedade impensável graças à rede e pode inclusivamente rentabilizar isso em concertos e, porque não, aumentar as vendas de discos graças à popularidade”, era uma das frases atribuídas ao ministro português, que detém a pasta da Tecnologia.

Não leio nesta frase nenhuma ligação à pirataria. É, aliás, uma frase clássica hoje em dia. Clássica de verdadeira, aquelas verdades comprovadas pelo passar do tempo. Tão clássica que fica bem a um ministro dizê-la. Mas isto sou eu. Jornalistas de uma agência espanhola traduzem “Internet” por “pirataria”. Um jornal vai atrás, e todos vão atrás dele, é o caminho natural das “notícias” e das notícias.

E não são só eles. É uma moda que pega depressa, muito depressa num classe ansiosa por encontrar culpados para algo tão banal como a substituição de modelos de negócio por fim de ciclo. E que encontra solidariedades fáceis noutros negociantes do sector dos transportes de cultura, arte e entretenimento, bem ancorados numa teia legal irrealista e desfasada da sociedade actual.

As indústrias baseadas nessa malha legal e no transporte de suportes de produtos culturais, informativos e de entretenimento produzidos por terceiros travam a sua batalha pela sobrevivência num mundo conetado e numa sociedade em rede que tornou esse mesmo transporte anacrónico e retirou o sentido e a razão à existência dessa camada de intermediação (que em regra se fazia pagar muitíssimo melhor do que os produtores originais, que realmente interessavam aos consumidores).

Os seus tentáculos legais, sob a forma de associações, e o exercício do seu poder corporativo, ou das suas influências naturais dentro das suas redacções, são instrumentos poderosos desse combate de resistência. A indústria que se gabou de vender sabão e presidentes não era agora capaz de impingir o seu próprio conceito sobre o que é pirata e ilícito, oh oh.

Nada disto me irrita já, se querem saber. Mas gosto de ver um ministro criticado justamente, não de o ver ser vítima da miopia e dos maus instintos de diversas corporações, incluindo de benfeitores.

Adenda: um bom trabalho do Marco a lançar mais luz sobre o que disse e como disse Mariano Gago: O que Mariano Gago realmente disse.