Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

2 de janeiro de 2011

Cavaco representa a tribo que reparte os sacrifícios e avoca os benefícios

Eu não quero ter um presidente que quer os sacrifícios repartidos “por todos, sem excepções ou privilégios“. Prefiro um que me diga, com a mesma clareza, que quer os benefícios repartidos por todos, sem exceções nem privilégios.

Irrita-me a ideia, predominante na classe que detém o megafone da opinião, de que a crise deve ser paga pelos extratos sócio-económicos mais deprimidos da população e pelos funcionários públicos.

Como se as classes baixas e os funcionários do Estado tivessem sido os beneficiados do sub-prime, da má gestão das carteiras de créditos, das inantes políticas económicas públicas ao longo de um século por executivos multi-coloridos (não é que não tenhamos tentado todas as soluções oferecidas no catálogo do voto), ou tivessem repartido o bolo dos assaltos ao BPN e dos desfalques noutras instituições financeiras. E portanto agora têm de repor. Bullshit.

Tenho passado a pré-campanha distante. Mas a mensagem de ano novo do Presidente da República irritou-me. Cavaco representa uma tribo que não é a minha. A tribo que nacionaliza o prejuízo e privatiza o lucro. Que reparte os sacrifícios e avoca os benefícios. (Ou, mais ao estilo de Cavaco, cala-se e consente que eles sejam avocados.)

Nota: declarei o meu apoio ao candidato Manuel Alegre. O meu envolvimento nestas presidenciais pouco passa daí. Não pelas mesmas razões que a maioria dos portugueses, que acham enfadonhos os discursos dos candidatos, quando não mesmo desnecessário (!) o plebiscito que reconduzirá Cavaco Silva no cargo para um segundo — e, boas notícias!, último — mandato. Mas porque o muito trabalho que felizmente tenho tido me deixa menos tempo de ócio.