Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

25 de setembro de 2008

Desculpem perguntar: onde está Manuela Ferreira Leite?

Desculpem interromper o recreio-Magalhães, e desculpem perguntar: onde está Manuela Ferreira Leite?

Ontem vi o esforçado Paulo Rangel a defender a honra do convento no debate quinzenal — o primeiro depois do combate de rentrées, que terminou com a vitória do PS com o KO da “mudança”.

Hoje procuro afanosamente UMA palavra da líder do PSD sobre o debate. Debalde. É sem dúvida culpa do Google News. Não. A culpa é do noticiário das 13, que é governamentalizado. Não. A culpa é dos jornalistas de esquerda que dominam a Redacção do Público. Não. A culpa é dos webmasters do site oficial do partido, que mantém como “novidades” o “documento dos princípios orientadores da Estratégia das Eleições Autárquicas de 2009″ e como “manchete” “Manuela Ferreira Leite estranha silêncio de Carlos César sobre proposta de nova lei eleitoral”. Não. A culpa é dos editores de esquerda que dominam os jornais. Não. A culpa é dos webmasters do site do grupo parlamentar do partido, que só colocaram Rangel, Negrão e Guilherme Silva, omitindo as reacções de Ferreira Leite e, deixa ver quem é o vice-presidente que ainda aparece às vezes nos jornais, ah, António Borges. Não. A culpa é, definitivamente, dos algoritmos do Google, que só fazem aparecer estas notícias.

Há uma crise financeira mundial?

O Presidente Cavaco Silva faz um discurso importante na ONU, que envolve Portugal, a CPLP e a língua portuguesa?

Os jogos de bastidores para a Câmara de Lisboa começaram?

Vai um regabofe nos preços da gasolina e o Governo assobia para o ar, uma exelente oportunidade para o olhar de frente e fazer 2 ou 3 Perguntas Realmente Importantes?

A Rangel dava jeito sentir a líder por perto, para a tarefa de entalar o Primeiro-Ministro no debate quizenal e tentar marcar pontos para o orçamento que virá dentro de 15 dias?

Nada disto tem o menor interesse para os estrategas deste enigmático PSD. O espaço disponível para o PSD no sistema de partilha de espaço em capa e prime-time a que alguns reduzem o jornalismo está ocupado com os problemas de tribunal de Santana Lopes e Valentim Loureiro e o come-back de Marques Mendes. De Manuela, Borges — ou, vá lá, Rui Rio e Aguiar Branco — nem rasto.

Nem uma chamadita.

Uma evocação.

Uma legenda?

Um discurso directo, nem que seja requentado?

Nada. Népias. Nil. Null. 0.

Como escreve António Bento em carta a Luís Paixão Martins, “quanto mais invisível e privada, quanto mais privativa e ascética for a imagem física da líder, acredita-se, tanto mais o fantasma da sua ausência se tornará presente e se fará sentir, insinuando-se na “alma” do eleitorado” (em A credibilidade do silêncio de Manuela Ferreira Leite)

Mas no cubo de Rubik que é a vida, a cor do silêncio não está associada só aos cubos “asceta” e “puro”.

Uma rotação — e o cubo “cadáver” pisca-nos o olho, sorriso maléfico.

© rabiscos vieira, publicado no Arrastão