Certamente!

Paulo Querido. Na Internet desde 1989

13 de janeiro de 2012

#digamAoAlvaro: Pastéis de nata em Montreal, Bruxelas, Macau, Filipinas, Hong Kong, Japão…

Poderemos dizer que existe um cluster mundial do pastel de Belém prosseguido a partir da indústria pasteleira portuguesa? Não, mas a verdade é que o pastel de nata é um produto sujeito a uma internacionalização cuja dimensão o ministro Álvaro Santos Pereira desconhece — ou teria articulado o exemplo de outra forma.

Álvaro desconhece nomeadamente o Lord Stow’s Bakery, diz-me no Facebook amigo de longa data. “Já os comi em Macau e Hong Kong muitas vezes e até nos quartos do Mandarim Oriental estão como mimo quando nos vêm abrir a cama. Foram adaptados aos gosto dos chineses e como é natural prefiro os portugueses com que cresci“.

Eu acho o exemplo dos pastéis de nata um bom exemplo. É engraçado: foi a primeira vez que o ministro Álvaro abriu a boca e eu o levei a sério. Isto porque vi há poucas semanas o potencial internacional do pastel de nata. Refleti sobre isso, em Bruxelas, a comer um pastel de nata numa livraria que tem uma zona de café — a Librairie Filigranes.

Um jornalista contou-me a história. Quem produz aqueles pastéis de nata vende para aquele ponto e para mais uma dúzia. Mas o seu grande cliente é o Parlamento Europeu: vende umas boas centenas (já não sei precisar o número) de pastéis por dia para os bares do Parlamento. Afiançou-me que nenhum outro produto é tão consumido. Ou os deputados e funcionários da Nação são todos uns imensos comilões de pastéis de nata, ou têm colegas extremamente simpáticos que fazem por os impressionar.

Ou não. Fiquei a pensar naquilo… ora aqui está um produto com um sabor que vai bem com os palatos das mais diferentes geografias.

Nota pessoal: pelos que comi, o gosto dos pastéis de nata que se vendem em Bruxelas, na Librairie Filigranes e no Parlamento Europeu não é propriamente igual aos de Belém (nem ninguém espera que seja). Mas é igual aos que podemos comer em centenas de pastelarias por este Portugal fora.

É claro que, vindo de quem vem, o cluster dos pastéis de nata entra para o anedotário tuga e reforça em muitos a convicção de que este governo é um pastel. Mas penso que o bom humor, neste caso, terá outro efeito, um duplo efeito positivo.

Por um lado, chama a atenção para exemplos de sucesso com produtos nacionais — o que só pode ajudar a pensarmos como contrariar o empobrecimento geral, que é a pedra de toque de um governo incapaz de produzir melhor política para o país.

Por outro lado, descomprime a sociedade da imersão mediática em casos de aventais, nomeações, escândalos, assaltos, mortes e cataclismos.

Mais:

Mesa marcada: Vão vir charters de pastéis de nata

jugular: Ó Álvaro eu não percebo bem a língua mas vou lá pela mímica, era mais ou menos isto a tua ideia não era?

Jornal de Negócios: O súbito interesse nos pastéis de nata

a barbearia do senhor Luís: O belo pastel

Mais pasteis de nata no mundo (obrigado, Luis):

Teixeira Bakery em Newark (comentário: “amazing pasteis de nata“)

Universal Bakery (“Yes, Portuguese egg tarts aka pastel de nata. Given we have our share of Chinese readers, think a more rustic version of the egg tart (of course, keeping in mind that Chinese egg tart has its roots from this dish)”